Lições de uma greve

Dom Murilo S.R. Krieger, scj
Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

A Missa do Crisma, na Quinta-feira Santa de manhã (17.04.14), na Catedral Metropolitana de Salvador, havia terminado. Conversava com alguns sacerdotes sobre a beleza da celebração, quando chegou o pedido para que eu fosse até a sede da Câmara de Dirigentes Lojistas. Os policiais militares estavam em greve e, naquele local, autoridades e líderes do movimento grevista se encontravam reunidos, buscando chegar a um acordo. Na cidade, eram visíveis os danos que esse movimento causava à população. Aceitei o convite, pois sabia que, em situações assim, qualquer ajuda pode ser importante para se alcançar a paz.

Ao chegar ao local, surpreendi-me com o ambiente que encontrei: em vez de tenso, era de diálogo. Percebi que havia, de ambos os lados, o desejo de encontrar uma solução para a greve. Aprovada uma proposta, nasceram, no entanto, algumas perguntas: os militares que estavam reunidos no parque Wet´n Wild aceitariam o que lhes seria apresentado? A greve terminaria? Como seria o final da Semana Santa?…

Aceitei ir ao encontro dos grevistas para, se necessário, participar do diálogo com eles. As propostas foram apresentadas, votadas e aceitas pelos que ali se encontravam. Percebia-se que todos sentiam-se aliviados, esperançosos pela retomada da vida normal. Aos poucos, a cidade de Salvador e o Estado da Bahia voltavam à normalidade. Ficavam, sim, daqueles dias de tensão e medo, muitas cicatrizes.

Era meu propósito analisar aqui os riscos de uma greve, de qualquer greve, independentemente da categoria a que pertencem os grevistas; mais urgente e necessário, contudo, é refletir sobre as consequências de uma greve de policiais militares, que afeta toda a população e gera problemas inimagináveis, além, e principalmente, da perda de vidas humanas. Como tais reflexões exigiriam maior espaço e necessitariam de maior tempo para escutar pessoas e grupos atingidos, debruço-me sobre um outro aspecto da greve: o surpreendente comportamento de parte do povo.

De repente, não só marginais, mas cidadãos comuns, mães de família, profissionais liberais, jovens universitários, adolescentes, crianças etc., tendo ouvido falar que em determinado momento estava se iniciando uma greve da PM, sentiram-se livres para depredar lojas e roubar o que estivesse a seu alcance, como se isso fosse natural, como se fosse “um direito” seu. Lojistas, atônitos, procuraram intervir, pedindo respeito à sua propriedade. Eram vozes clamando no deserto. Soube de um modesto comerciante que ficou mais indignado com o que viu do que com a perda total do estoque de sua pequena loja, por mais que tal perda fosse importante, pois ali estava todo o seu patrimônio e a garantia do sustento de sua família.

Curioso, o ser humano! Por vezes, parece que só lhe falta a devida oportunidade para poder mostrar o que há em seu coração. Lembro-me de que, nos meus tempos de estudante de Filosofia, fiquei impressionado com o pessimismo do filósofo inglês Hobbes (1588 – 1679), para quem “O homem é o lobo do homem”. Segundo ele, como as pessoas desejam as mesmas coisas e sentem as mesmas necessidades, seu estado natural é o de conflito e de guerra. Sou adepto, contudo, das explicações do apóstolo Paulo: depois de nos lembrar a salvação operada por Cristo, ele chamou a nossa atenção para as consequências que o pecado deixou no coração humano. Daí o seu apelo: “Devereis abandonar a vossa antiga maneira de viver e vos despojar do homem velho, corrompido pelas paixões enganadoras, para uma transformação espiritual de vossa mentalidade, e revestir-vos do homem novo, criado segundo Deus em justiça e verdadeira santidade” (Ef 4,22-24). Suas palavras são, pois, um eco daquelas proferidas por Jesus, no início de sua pregação: “O Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede na Boa-Nova” (Mc 1,15). Sem uma permanente conversão do coração, o “homem velho” aproveitará para se manifestar na primeira oportunidade possível.

Como podem ver, também sobre greve a Palavra de Deus tem muito a nos ensinar…

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