Maternidade universal

10/05/2014 | Maria Clara Lucchetti Bingemer *

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O Dia das mães é sempre precedido de tumulto. Lojas e ruas cheias, comércio aberto noite e dia, tentando atrair o consumidor incauto em suas malhas ávidas. As homenageadas mães enfrentam, como sempre, filas para restaurantes lotados porque nesse dia “elas não devem trabalhar”.

Garanto que prefeririam dividir o trabalho durante o resto dos dias do ano e trabalhar alegremente no dia a elas dedicado, fazendo uma grande e saborosa refeição para os filhos queridos. Por isso e porque sua grande razão de viver é estar com estes que são frutos amados de suas entranhas, elas encararam com bom humor as filas e as multidões, e fazem sua comemoração curtindo as glórias da maternidade pelo menos neste dia celebrada.

No entanto, hoje meu desejo é falar de outra maternidade, que não individual, mas corporativa. Não por isso, porém, é menos profunda e admirável. Sua fecundidade pretende alcançar toda a humanidade e mesmo àqueles que não se confessam conscientemente seus filhos, estende a mão e propõe alianças em prol de causas justas e éticas como a paz, o diálogo entre os povos, a harmonia entre as religiões.

Em seu regaço materno filhos de muitas raças e proveniências um dia foram acolhidos e assumidos, sem que lhes fizesse perguntas nem colocasse limites e interditos à sua filiação. Por esses filhos se fez responsável, mãe e mestra, procurando conduzi-los e guiá-los no caminho da Verdade e da Paz. Iniciou-os no mistério da Vida verdadeira, ensinando-lhes a sintaxe da fé, a gramática da esperança e a prática da caridade. Como todas as mães, seu relacionamento com os filhos não foi e nem é sempre pacífico. Há conflitos e dissensões na história de suas relações. Muitos filhos, antes fiéis e concordes, um dia discordaram de posições e ensinamentos seus. Muitas vezes seu discurso soou antigo e ultrapassado aos filhos mais críticos ou mais novos, que lhe disseram este sentimento em alto e bom som.

No entanto, como sempre acontece entre mães e filhos, essas crises em geral são superadas. E os mesmos que muitas vezes foram críticos agudos do comportamento e da palavra materna e que não hesitaram em entrar em confronto aberto com ela, por outro lado não permitiram nem permitem jamais que outros a critiquem e menosprezem. Mesmo no fundo mais profundo do conflito, o amor materno-filial permanece.

Desta mãe de braços sempre abertos, a Igreja, um dia nascemos para a fé e a vida nova em Jesus Cristo. A ela pedimos humildemente o Batismo. E ela nos tomou nos braços e nos mergulhou nas águas revoltas e profundas da paixão e morte de Jesus Cristo e dali nos ergueu para a vida nova, na qual fomos configurados a Ele para
sempre. A partir daí, nossa identidade mais profunda passou a ser não nosso sangue, nossa raça, nossa carne e nossa cidade terrestre. Mas sim a pessoa de Jesus Cristo, sua encarnação, vida, paixão, morte e ressurreição.

A Igreja passou a fazer conosco o que fazem as mães: ensinar os primeiros passos na nova vida que iniciamos. Ensinou-nos as palavras de Jesus, ensinou-nos a chamar Deus de Pai. Pôs à nossa disposição a luminosa Palavra consignada na Escritura para guiar nossa vida; ofereceu-nos os sacramentos para nossa confirmação, consolo, reconciliação e alimento. Nutriu-nos com a meditação dos mistérios da fé, o aprofundamento da palavra e a celebração da liturgia. Ensinou-nos a louvar, a rezar, a cantar.
À medida em que íamos crescendo, foi nos ensinando a pedagogia de Deus, caminho para uma vida plena que culmina no amor. E nos foi alfabetizando na linguagem desse amor. Esteve ao nosso lado nos momentos cruciais da nossa vida: nascimento, acesso à comunhão eucarística, envio à missão, casamento, ordenação, doença, morte.

Assim como nos tomou nos braços ainda crianças para marcar-nos indelevelmente com a água batismal e o selo do Espírito Santo, assim também estará ao nosso lado antes de empreendermos a última e definitiva viagem ao encontro da Luz que não se apaga, do lado de lá das fronteiras da morte. Sobre nossa fronte cansada a Mãe Igreja traçará uma vez mais o sinal da nossa salvação: o sinal da cruz e com seu carinho nos acompanhará na partida e na esperança da chegada.

Portanto, por tudo e apesar de tudo, neste Dia das Mães é digno e justo celebrar a maternidade universal da Igreja. Sentimo-nos filhos de Deus na medida em que somos mais filhos seus.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. É autora de “Ser cristão hoje” (Editora Ave Maria).

Fonte: Maria Clara Lucchetti Bingemer