Cresce violência contra indígenas e despejos na Amazônia em 2013

Por Cleymenne Cerqueira

relatrio cpt

De acordo com dados divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) na última semana, em 2013 diminuíram os conflitos no campo. Foram registrados 1.266 casos em 2013 contra 1.364 no ano anterior. Esses dados estão relacionados a conflitos por terra, que diminuíram de 1067 para 1007; conflitos trabalhistas, de 182 para 154; e outros conflitos, que tiveram um declínio, passando de 36 para 12 casos registrados.

No entanto, quando se trata de conflitos por água, número de famílias despejadas e violência contra a pessoa, o relatório aponta que em 2013 houve um aumento de índices. Em 2013, 104 conflitos tiveram como principal motivação o uso ou acesso à água. Número 32% maior que em 2012 quando foram registrados 79 casos.

Para a CPT, esse maior número de conflitos, que atingiu 32.747 famílias, está intimamente relacionado à construção de hidrelétricas. Obras estas que incidem principalmente sobre estados da região Nordeste, onde aconteceram 43,26% dos casos, seguido do Norte com 25% dos conflitos, e região Sul com 18,26%.

Despejos na Amazônia

publicação destaca ainda o crescimento de 76% no número de famílias despejadas na Amazônia. Ao passo que no restante do país esse número passou de 1388 para 1144. Os conflitos, como nos anos anteriores, estão concentrados em áreas onde o capital avança. As diversas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o avanço da mineração, a grilagem de terras, a extração de madeira e o avanço de monoculturas na região, ainda hoje considerada uma das principais fontes de recursos naturais, contribui diretamente para o aumento.

Na Amazônia de acordo com o relatório, concentraram-se em 2013, 20 dos 34 assassinatos, 174 das 241 pessoas ameaçadas de morte, 63 dos 143 presos, e 129 dos 243 agredidos. Das populações tradicionais que foram vítimas de algum tipo de violência, 55% se localizaram na Amazônia. A maior parte das áreas em conflito está na Amazônia Legal. São 5.530.036 hectares do total de 6.228.267 hectares de terras envolvidos em disputa.

Violência contra indígenas

No quadro geral de violências contra a pessoa, das 829 vítimas de assassinato, ameaças de morte, prisões, intimidações, tentativas de assassinatos e outras, 238 são indígenas. Das 34 mortes por assassinato, 15 também são de indígenas. Eles foram ainda as maiores vítimas quando se trata de tentativas de assassinato, 10 dos 15 casos registrados. Das 241 pessoas ameaçadas de morte, 33 são indígenas. Para a CPT, nos 29 anos que publica o relatório, nunca se teve registro de situação semelhante.

Esses dados estão intrinsecamente relacionados ao avanço do capital. Avanço esse que chega as terras de comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos e pescadores. Estão ainda relacionados ao atual modelo de desenvolvimento do país que preza pela construção de grandes obras e pelo avanço do latifúndio em detrimento aos direitos humanos. E as terras e as comunidades indígenas ainda são vistas como entrave a esse avanço.

Para o secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Cleber Buzatto, “O modelo de desenvolvimento implantado no país tem uma dependência extrema da exploração e exportação de commodities agrícolas e minerais. Isto se traduz em financiamento de setores econômicos do país e isto incentiva e pressiona para o acesso a novos territórios. O território indígena é uma espécie de barreira para o avanço do agronegócio e do latifúndio. Eles buscam novos territórios de exploração para transformar bens naturais em mercadorias”.

Os estados que lideram esse ranking da violência contra os indígenas são Mato Grosso do Sul e Bahia, justamente estados onde imperam o agronegócio. Juntos, os dois somaram: 18 ameaças de morte, 8 tentativas de assassinato, 7 assassinatos e 8 presos. Também são desses estados os índices de violência contra as lideranças indígenas, com 34 ocorrências ligadas a ameaças de morte, 26 tentativas de assassinato e 4 assassinatos.

Acesse relatório na íntegra

http://www.cptnacional.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=734&Itemid=103