Pedro Cruz fala sobre os desafios da profissão

Jornalismo
é missão e vocação

Uma missão com mais alma do que técnica. É assim que Pedro Cruz define o jornalismo, a profissão com que sempre sonhou e que abraçou há mais de 20 anos. Numa entrevista à revista Mensageiro, o coordenador da redacção da SIC no Porto fala do panorama da comunicação social portuguesa, das fontes de informação cada vez mais profissionais, da quebra de receitas publicitárias e da conciliação entre os suportes mais tradicionais e o mundo digital.

Mensageiro – Como vê neste momento o panorama da comunicação social em Portugal?

Pedro Cruz – Como em todas as áreas, está em crise porque grande parte dos meios de comunicação social vive apenas e só de publicidade. Exceptua-se aqui o caso da RTP, que tem uma compensação por serviço público e que pertence a um grupo de media público. No caso da SIC, perdemos 60 por cento da publicidade no último ano. Por outro lado, o valor da publicidade está estável desde 2000; ou seja, hoje um anúncio custa a mesma coisa que custava em 2000, sendo que tudo o resto aumentou.

Os meios de comunicação social privados têm feito um esforço enorme por sobreviver, lutando contra a quebra de publicidade, que não é responsabilidade do nosso mau ou bom trabalho, é responsabilidade do mercado e da conjuntura, e tentando arranjar receitas alternativas para se manterem a dar lucro ou pelo menos a não dar muito prejuízo.

As coisas não estão fáceis, em geral. A SIC, em particular, que é o caso que conheço melhor, tem feito uma gestão com algum critério. E tem conseguido sobreviver ou até viver com alguma tranquilidade porque foi feito um trabalho de redução de custos muito grande em várias áreas.

De que forma é que isso representa um constrangimento?

Sobretudo em novas contratações. O quadro da SIC, por exemplo, está fechado. Não podemos contratar mais pessoas, ou pelo menos contratá-las definitivamente. Às vezes, contratamos pessoas para um projecto, um programa novo que vai acontecer, para alguma coisa nova, que depois tem uma duração e acaba. Depois, afecta sobretudo nas verbas disponíveis para, por exemplo, irmos para o estrangeiro.

É uma questão de gestão e de prioridades. Há que fazer uma gestão mais criteriosa do dinheiro que está disponível… ou mais cuidada. E as prioridades têm que ser redefinidas.

O grande desafio que se coloca neste momento é saber gerir essa situação de crise?

Claro. Eu acho que o maior desafio é saber, em tempos de crise, gerir com o orçamento que temos. Isto é um bocadinho como em nossas casas.

Uma questão que se coloca muito é a conciliação entre os meios mais tradicionais, como o papel, e os meios digitais. Como é que vê esta convivência hoje em dia?

Eu, ao contrário de muita gente, acho que o papel nunca vai desaparecer. E, como toda a gente, acho que a área digital, online, mais ligada às novas tecnologias, está cada vez a ganhar mais espaço, o que é bom. A única diferença é que nós temos que ter aqui, enquanto jornalistas, um papel de mediação ainda mais forte. É sempre preciso uma mediação das notícias feita por um jornalista, seja no papel, seja no digital.

Mas esta coisa de acreditar que o papel não acaba é só minha. Acho que é muito importante continuar a ter o cheiro do papel e manuseá-lo. Para mim, não é a mesma coisa ler o Expresso no iPad ou no papel. É mais uma vontade do que propriamente uma constatação do que é a tendência.

Enquanto professor universitário, quais são as suas principais preocupações, sobretudo em termos de preparação dos alunos para o mercado de trabalho, num cenário de crise como é este?

Eu digo-lhes sempre a verdade, mesmo que essa verdade às vezes doa. Hoje não basta ser bom, é preciso ser muito bom ou excelente. E eu acredito, e temos exemplos na SIC, que os muito bons ou os excelentes, mesmo em tempo de crise, conseguem trabalhar, conseguem um espaço para se afirmar. O problema é que há muito poucos muito bons ou excelentes. E o que nós fazemos aqui neste curso é tentar prepará-los para a prática.

Mas eles têm consciência das dificuldades que os esperam?

Acho que sim. Honestamente, acho que sim.

Todos os anos saem 1.500 licenciados em jornalismo ou coisas parecidas. E nós temos neste momento, com carteira profissional, cerca de 6 mil jornalistas em Portugal. Se todos os anos saem mais 1.500, em quatro anos nós duplicaríamos o número. Ora, não há capacidade do mercado para absorver todas estas pessoas.

Ultimamente, têm surgido projectos digitais novos, televisões locais, televisões só na internet, televisões no cabo. Apesar de tudo, há uma parte destes estudantes de todo o país que acaba por ser absorvida pelos novos negócios que se vão lançando. Mas nunca será nesta proporção. Eu diria que dez por cento, talvez, acaba por conseguir um trabalho na área. O resto não.

Os alunos têm noção do que é o jornalismo no dia-a-dia? Têm noção das vicissitudes da profissão? O trabalhar o sábado e o domingo, à noite, o salário…

Não, não têm, e isso também não se ganha aqui. Por isso é que os estágios são muito importantes. Quando um aluno termina um curso, não é jornalista. É licenciado em comunicação, neste caso. Jornalista será depois, quando então tiver esse choque com a realidade. E esse primeiro choque é dado pelo estágio, com um treino que na SIC pretendemos que seja o mais próximo possível da realidade.

Quais são as principais dificuldades que sente no exercício da profissão?

Duas. A primeira é a pressão que é exercida sobre nós, que faz parte do processo. Mas só se deixa pressionar quem quer. Nós jornalistas e nós que dirigimos redacções, somos editores ou temos funções de responsabilidade, temos que saber lidar com essa pressão, porque ela faz parte. Foi sempre assim. Há-de ser sempre assim.

Mas, o que mais me custa, a maior dificuldade, são as fontes indirectas. Hoje, os actores da vida pública, não são só os políticos, são todos profissionais. Há gabinetes de comunicação altamente profissionais e o nosso acesso às fontes passou a ser indirecto. Os assessores de imprensa já têm assessores e há casos em que nós já não falamos com o assessor, porque o assessor já é demasiado importante para falar connosco, já falamos com o assessor do assessor. Esta chegada indirecta, estas fontes indirectas para mim são o maior obstáculo a que o jornalismo seja melhor ainda. Vamos fazer uma visita do Primeiro-Ministro e não conseguimos falar com ele porque ele recusa-se a responder a perguntas. Isso não acontecia há dez ou 15 anos.

A forma como nós lidamos com as fontes é completamente diferente e isso é uma das coisas que mais me irrita. Cada vez mais, ao longo do tempo, nós estamos condicionados; não é no nosso trabalho, é no acesso às fontes directas.

E quais são as principais gratificações, no meio de tudo isto?

Eu sempre quis ser jornalista. A mim não me custa acordar e ir trabalhar. Pelo contrário. Eu acordo e vou trabalhar. E gosto de trabalhar, gosto muito daquilo que faço, foi sempre isto que quis fazer. Para mim ser jornalista é uma realização profissional e eu acho que o jornalismo é um bocadinho mais que uma profissão: é uma missão, uma vocação, uma vontade; é algo que está lá dentro, que vem do interior; é algo que não se aprende nas faculdades. Ou se tem ou não se tem. É uma coisa que tem mais alma do que propriamente técnica. Porque a técnica aprende-se. A alma é que ou está lá ou não está. Para mim, é óptimo ir trabalhar numa redacção, todos os dias fazer coisas diferentes, estar em sítios diferentes, falar com pessoas diferentes. A parte boa é quase toda. Depois temos umas dificuldades de vez em quando, mas isso faz parte do percurso.

Acha que os meios de comunicação social portugueses estão ao serviço da verdade e da paz?

Ao serviço da verdade não tenho nenhuma dúvida em responder que sim. Nenhum jornalista dá uma notícia errada por vontade própria. Se dá uma notícia errada é porque foi enganado. Nenhum jornalista mente deliberadamente ou falta à verdade sabendo qual é a verdade.

Em busca da verdade nós estamos sempre, embora não sejamos tribunais. É preciso também perceber isso, porque às vezes as pessoas confundem um bocadinho o nosso papel enquanto denunciadores e fiscalizadores com o papel justicialista que não nos cabe.

Em relação à paz, nós não temos que estar nem com a paz nem com a guerra. Nós não temos que estar do lado de ninguém. Temos que estar do lado dos direitos humanos, das pessoas, da decência e do bom senso.

Eu acho que nós não temos que fazer paz, temos que buscar a verdade dos factos. Isso, sim, é uma obrigação que temos.

Um ano depois da eleição do Papa Francisco, como é que vê a sua presença na comunicação social?

O Papa Francisco é uma estrela. Eu acho que isto não tem a ver só com o Papa. Para já, há duas ou três coisas que distinguem os grandes homens dos outros, que é o carisma, e ele tem-no, e é a forma como se comunica, mesmo não querendo comunicar.

O Papa Francisco, que é latino, simpático, bem disposto, já percebeu que essas características que tem e cultiva fazem com que a mensagem que quer passar chegue a mais pessoas. Está a usar as suas próprias características e está a fazê-lo muito bem.

Usa muito bem isso e para os objectivos dele ainda bem. Porque se ele consegue que as pessoas façam like da sua página e se postam as coisas no facebook e se com isso consegue ser ouvido, quer dizer que a mensagem que quer está a ser bem passada e isso é obviamente um trunfo dele e da personalidade dele.

E um benefício para a Igreja?

Naturalmente.

Cláudia Pereira / Elisabete Carvalho

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