ACOLHER A FORÇA DO EVANGELHO

 

Pe. José Antonio Pagola. Tradução:    Antonio Manuel Álvarez Pérez

Dois discípulos de Jesus vão-se afastando de Jerusalém. Caminham tristes e desolados. Nos seus corações apagou-se a esperança que tinham colocado em Jesus, quando o viram morrer na cruz. No entanto, continuam a pensar Nele. Não o podem esquecer. Teria sido tudo uma ilusão?

Enquanto conversam e discutem de tudo o que viveram, Jesus aproxima-se e caminha com eles. No entanto, os discípulos não O reconhecem. Aquele Jesus em quem tanto tinham confiado e que tinham amado talvez com paixão, parece-lhes agora um caminhante estranho.

Jesus junta-se à sua conversa. Os caminhantes escutam-no primeiro surpreendidos, mas pouco a pouco algo se vai despertando nos seus corações. Não sabem exatamente o quê. Mais tarde dirão: “Não estava a arder o nosso coração enquanto nos falava pelo caminho?”

Os caminhantes sentem-se atraídos pelas palavras de Jesus. Chega um momento em que necessitam da Sua companhia. Não querem deixa-Lo partir: “Fica connosco”. Durante o jantar, abrem-se os olhos e reconhecem-No. Esta é a primeira mensagem do relato: Quando acolhemos Jesus como companheiro de caminho, as Suas palavras podem despertar em nós a esperança perdida.

Durante estes anos, muitas pessoas perderam a confiança em Jesus. Pouco a pouco, foi-se convertendo num personagem estranho e irreconhecível. Tudo o que sabem Dele é o que podem reconstruir, de forma parcial e fragmentada, a partir do que escutaram a predicadores e catequistas.

Sem dúvida, a homilia dos domingos cumpre uma tarefa insubstituível, mas resulta claramente insuficiente para que as pessoas de hoje possam entrar em contacto direto e vivo com o Evangelho. Tal como se leva a cabo, ante um povo que há de permanecer mudo, sem expor as suas inquietudes, interrogações e problemas, é difícil que consiga regenerar a fé vacilante de tantas pessoas que procuram, por vezes sem o saber, encontrar-se com Jesus.

Não terá chegado o momento de instaurar, fora do contexto da liturgia dominical, um espaço novo e diferente para escutarmos juntos o Evangelho de Jesus? Porque não reunir-nos, laicos e presbíteros, mulheres e homens, cristãos convencidos y pessoas que se interessam pela fé, a escutar, partilhar, dialogar e acolher o Evangelho de Jesus?

Temos de dar ao Evangelho a oportunidade de entrar com toda a sua força transformadora em contacto direto e imediato com os problemas, crises, medos e esperanças das pessoas de hoje. Em breve será demasiado tarde para recuperar entre nós a frescura original do Evangelho.