Canonização inédita de dois papas neste domingo

Canonização inédita de dois papas neste domingo 26/04/2014 | Eduardo Carvalho

 

A canonização dos Papas João XXIII e João Paulo II, marcada para este domingo (27), tem significado especial para a Igreja Católica no Brasil. Religiosos ouvidos pelo afirmam que o pontificado dos dois religiosos “revolucionou” o catolicismo no país no século 20. As ações implementadas por João XXIII permitiram que a língua portuguesa fosse incorporada aos ritos do catolicismo, consequência do Concílio Vaticano II. Já João Paulo II, nas três visitas feitas ao país, levantou diversas bandeiras sociais, entre elas a dos direitos humanos, em 1980, quando o Brasil ainda vivia uma ditadura militar. O primeiro, foi progressista por adaptar a instituição milenar ao mundo da época, imerso na Guerra Fria. O segundo, usou e abusou da mídia para chamar a atenção do público, da juventude e também de políticos. Porém, era considerado conservador. Para o professor de teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC, Padre Antonio Manzatto, tornar santo ao mesmo tempo os dois líderes religiosos é uma “grande sacada”, por mostrar que a Igreja Católica pode ser ora progressista, ora conservadora. “Significa que a santidade tem múltiplos caminhos e que cada um pode encontrar o seu”, explica. Ao ser eleito no conclave, o italiano Angelo Roncalli escolheu o nome João XXIII. Mas popularmente ficou conhecido como “o Papa bom” ou ainda como “Papa de transição”, por tornar-se líder dos católicos aos 77 anos – seu pontificado foi de 1958 a 1963. Apesar da curta duração de seu pontificado, marcou profundamente a história da Igreja ao convocar em 1961 o Concilio Vaticano II, uma reunião com todos os bispos do mundo para promover mudanças na doutrina e na ação pastoral católicas. Ele presidiu apenas a primeira sessão, em 1962, que teve duração de dois meses. Devido a grandes indefinições, a reunião precisou de outras três sessões e terminou em 1965, sob a batuta de Paulo VI – João XXIII havia morrido dois anos antes. Foram várias as mudanças definidas no Concílio que impactaram o catolicismo. No Brasil, missas e ritos que, até 1965, eram feitos em latim passaram a ser realizados em português. Padres tiveram permissão para vestir roupas comuns e não apenas batinas, e as pastorais da igreja, antes compostas só por religiosos, foram estruturadas com pessoas comuns, os leigos. “Ninguém ouvia a Igreja. Ela falava uma coisa e o mundo outra. Com o Concílio, a igreja se renovou, se atualizou e ficou mais próxima das pessoas”, disse Manzatto. Segundo o cardeal Dom Raymundo Damasceno, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, a realização do encontro “foi uma grande intuição e inspiração de João XXIII”. Dom Damasceno explica que foi a partir desse momento que a Igreja abriu as portas para dialogar com outras religiões, por meio do ecumenismo, a busca da unidade. “Hoje ninguém consegue avaliar direito o impacto do Concílio. A nova geração não tem nem ideia de como era a Igreja antes”, disse ele. João XXIII iniciou mudanças bruscas na Igreja Católica com o Concílio Vaticano II; João Paulo II ficou conhecido como o Papa da globalização, por viajar por dezenas de países ao longo de 26 anos de pontificado. Papa carioca João Paulo II foi o primeiro Papa a vir ao Brasil e o que mais visitou o país até hoje: foram três viagens – 1980, 1991 e 1997. Sua famosa frase “se Deus é brasileiro, o Papa é carioca”, ouvida por fiéis durante sua passagem pelo Rio de Janeiro, em 1997, foi, segundo religiosos, um símbolo da vontade que o polonês Karol Woitjila tinha de se aproximar do brasileiro. “Ele aprendeu português por conta do Brasil. Gostava muito da nossa gente e tinha uma relação de afeto com o país”, explica o padre Manzatto. “Foi um homem que deixou marcas em seus discursos feitos por aqui”, conta Dom Damasceno. Em 1980, em pleno regime militar, defendeu temas como a justiça social, a liberdade sindical, a reforma agrária e os direitos humanos em discursos proferidos em cidades como Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Em 1991, já com a saúde debilitada após ter sofrido um atentado na Praça de São Pedro, em 1981, visitou dez cidades do país. Já em 1997, no Rio, durante encontro com famílias, condenou o divórcio, o aborto e os métodos contraceptivos. “O que caracterizou seu pontificado foi voltar a atenção que a Igreja devia dar a sua doutrina, uma preocupação de que o espírito de liberdade dado pelo Concílio Vaticano II pudesse afrouxá-la. Ele retoma aspectos disciplinares e tem debates sobre correntes teológicas”, explica padre Manzatto. Teologia da libertação Apesar da relação próxima com o país, foi aqui que João Paulo II demonstrou força como líder para frear o episcopado local. O motivo era a relação próxima de bispos e padres com a “Teologia da Libertação”, corrente de pensamento que estimulava a “opção preferencial pelos pobres”, mas que a Santa Sé enxergava como uma ideologia próxima do marxismo – que prega o socialismo e estimula “políticas ricas para os pobres e políticas pobres para os ricos”. O mesmo socialismo que João Paulo II ajudou a derrubar, mesmo que informalmente, na Europa, dividida pelo bloco capitalista e o socialista, sob controle político da União Soviética. Foi um homem que deixou marcas em seus discursos feitos por aqui”, afirma dom Raimundo Damasceno. “O Papa era contra porque a Igreja não prega violência. E essa forma de ver a sociedade como uma luta de pobres contra ricos incitaria uma violência revolucionária, algo que a Santa Sé se posiciona contra”, disse Manzatto. Vários teólogos, entre eles o ex-frade franciscano Leonardo Boff, foram punidos pelo então prefeito para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI. “Mas esses embates e a relação um pouco complicada com a Igreja do Brasil não retira sua santidade. Seu caminho de santidade é o da afirmação do Evangelho de Jesus, a busca pelo ecumenismo e sua aproximação com o povo simples”, complementa Manzatto. Fonte: Site Globo