70% das comunidades são privadas da Eucaristia dominical. Entrevista Paulo Suess

Em companhia de Dom Erwin Kräutler, Paulo Suess acompanhou a audiência do bispo do Xingu com Papa Francisco, no início do mês, em Roma. Com intuito de levar as causas importantes da comunidade brasileira a Bergoglio, Paulo Suess diz-se entusiasmando com a visita, embora critique a burocracia cerimonial da ocasião.

Para além das demandas dos indígenas da Amazônia, tema debatido ontem na entrevista com D. Erwin Kräutler, Suess chamou atenção para a responsabilidade da Igreja diante de sua comunidade eclesiástica. “A Igreja, que é sacramento de vida, pode e deve assumir coletivamente a carência de padres e saná-la coletivamente. Michel de Certeau, um jesuíta francês, muito estimado pelo Papa, fala de uma ‘ruptura inovadora’ (rupture instauratrice) de vida nova que nasce das ruínas. Podemos nos imaginar um grupo de viri probati que celebra em conjunto a Eucaristia”, sustenta. “A Igreja os convoca e encarrega para fazer comunitariamente o que nenhum deles pode fazer sozinho. O vínculo com a comunidade e para a comunidade, no interior de uma diocese e paróquia, pode fazer da Igreja local uma ‘comunidade de comunidades'”, complementa.

Paulo Suess nasceu na Alemanha. É doutor em Teologia Fundamental com um trabalho sobre Catolicismo popular no Brasil. Em 1987 fundou o curso de Pós-Graduação em Missiologia, na Pontifícia Faculdade Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo, onde foi coordenador até o fim de 2001. Recebeu o título de Doutor honoris causa, das Universidades de Bamberg (Alemanha, 1993) e Frankfurt (2004). É assessor teológico do Conselho Indigenista Missionário – Cimi e professor no ciclo de Pós-Graduação em Missiologia, no Instituto Teológico de São Paulo – ITESP. Entre suas publicações, citamos Dicionário de Aparecida. 40 palavras-chave para uma leitura pastoral do Documento de Aparecida (São Paulo: Paulus, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como foi a visita ao Papa Francisco? Quais são suas impressões acerca desse encontro?

Paulo Suess – A visita aconteceu no dia 4 de abril, por causa de um pedido de D. Erwin Kräutler que, além de ser bispo de Altamira, também é Secretário da Comissão para Amazônia, da CNBB, e presidente do Conselho Indigenista Missionário – Cimi. Eu era apenas acompanhante no evento, uma espécie de papagaio de pirata. Para o cerimonial do Vaticano, essa distinção entre o titular da audiência e seu acompanhante era importante, apesar das tentativas de D. Erwin de dar um upgrade verbal de status ao assessor teológico do Cimi. Ao abrir-se a porta do Palácio Apostólico, eu já sabia que seriam poucos segundos, quiçá minutos, que eu estaria face a face com o Papa Francisco. Formalmente ocorreu tudo segundo a previsão protocolar e com a cronometria do sistema fordista: o Papa saúda o bispo, o bispo apresenta o assessor, o Papa saúda o assessor, o assessor entrega um livrinho (“Dicionário de Aparecida”, em castelhano) e um documento sobre a situação de 70% de comunidades sem eucaristia dominical no interior deste país-continente, rapidamente comentados pelo Papa. Tudo acompanhado por um frenético fotoshooting de profissionais que à tarde venderam seus produtos num foto shop, 8 euros por imagem.

Agraciado com um rosário pelo Papa (ainda tenho um de João Paulo II), fui acompanhado ao portal por onde entrei. Depois de 15 minutos, abriu-se o portal novamente, D. Erwin saiu, e um grupo de bispos de Moçambique entrou. Ao voltar para a Casa Santa Martha, onde ficamos por dois dias hospedados, comentamos a atenção dispensada pelo Papa Francisco e a exatidão fordista do ritual. Missão cumprida. Nossas causas na mesa do Papa. Nosso coração ardente, na “Alegria do Evangelho” (Evangelii gaudium).

IHU On-Line – Quais foram os assuntos centrais que trataram?

Paulo Suess – D. Erwin, presidente do Cimi por muitos mandatos, tratou, obviamente, da questão indígena, a omissão do governo na demarcação das terras, os casos de violação dos direitos elementares já conquistados pelos povos indígenas e a situação, particularmente delicada, dos 90 grupos de povos indígenas que vivem em situação de isolamento, fugindo do contato com a sociedade nacional (cf. sítio do Cimi). Como secretário da Comissão para a Amazônia e com sua experiência de 40 anos vividos no Xingu, D. Erwin é uma testemunha qualificada para falar sobre a ameaça de vida que o modelo de desenvolvimento autoritário, com suas hidrelétricas (Belo Monte!), mineradoras e madeireiras, significa para a população local.

Eu entreguei um texto de duas páginas “Carência Eucarística – Altares sem Celebrantes” e meu “Dicionário de Aparecida” (em castelhano), que no verbete “Eucaristia” lembra a “Va Conferência de Aparecida”, da qual o Papa, ainda bispo de Buenos Aires, participou, particularmente na redação do documento final: “Sem uma participação ativa na celebração eucarística dominical e nas festas de preceito, não existirá um discípulo missionário maduro” (DAp 252).

IHU On-Line – Poderia comentar mais detalhes sobre o texto que entregou ao Papa sobre as comunidades sem eucaristia dominical?

Paulo Suess – Depois de 50 anos de padre, dos quais passei dez na Amazônia, preocupa-me a situação de 70% das nossas comunidades privadas da Eucaristia dominical. Em documentos oficiais, a Igreja registra essa injustiça, acumulando lamentos, sem “conversão pastoral”.

Aparecida lamenta: “O número insuficiente de sacerdotes e sua não equitativa distribuição impossibilitam que muitíssimas comunidades possam participar regularmente na celebração da Eucaristia. Recordando que a Eucaristia faz a Igreja, preocupa-nos a situação de milhares dessas comunidades privadas da Eucaristia dominical por longos períodos de tempo” (DAp 100e). Em sua “Carta do Primeiro Encontro da Igreja Católica na Amazônia legal”, de 2 de novembro de 2013, também os bispos da região lamentam: “Causa-nos uma profunda dor ver milhares de nossas comunidades excluídas da eucaristia dominical”. O Vaticano II, no Decreto “Presbyterorum ordinis”, é taxativo: “Nenhuma comunidade cristã se edifica sem ter a sua raiz e o seu centro na celebração da santíssima Eucaristia, a partir da qual, portanto, deve começar toda a educação do espírito comunitário” (PO 6).

A Igreja é a responsável por esta situação. Ela deve fazer tudo para que milhares de comunidades, privadas do pão de cada dia, não sejam também privadas da celebração do Sacramentum caritatis (SCa), da celebração do amor, da cruz e da ressurreição que vivem a cada dia. O apóstolo Paulo, missionário e fundador de muitas comunidades, nunca deixou uma comunidade sem Eucaristia. Recrutou, das próprias comunidades, “presbíteros”, anciãos, com a incumbência de celebrar a Eucaristia com a comunidade. Faz parte da “ética pastoral” corrigir essa evolução histórica que exclui tantas comunidades da Eucaristia dominical. Embora não seja o motivo mais forte para corrigir esse mal-estar eclesial, a carência sacramental é um convite facilitador para franco-atiradores do campo religioso, com sua palavra fundamentalista e suas promessas de prosperidade, invadirem as comunidades católicas abandonadas.

A Igreja, que é sacramento de vida, pode e deve assumir coletivamente essa carência e saná-la coletivamente. Michel de Certeau, um jesuíta francês, muito estimado pelo Papa, fala de uma “ruptura inovadora” (rupture instauratrice) de vida nova que nasce das ruínas.

Podemos nos imaginar um grupo de viri probati que celebra em conjunto a Eucaristia. A Igreja os convoca e encarrega para fazer comunitariamente o que nenhum deles pode fazer sozinho. O vínculo com a comunidade e para a comunidade, no interior de uma diocese e paróquia, pode fazer da Igreja local uma “comunidade de comunidades” (DSD 58, DAp 99e, 309).

IHU On-Line – Como foi a reação do Papa?

Paulo Suess – Quando falei das comunidades sem Eucaristia, o Papa respondeu imediatamente: “Eu falei aos bispos no Rio de Janeiro (JMJ). Eles precisam fazer propostas corajosas para podermos enfrentar essa situação”. Lembrei-me do “Sínodo para a América” (Roma, 1997), do qual participei como assessor teológico externo. Na época, senti de perto o desvirtuamento da ideia do Sínodo, pensado e criado por Paulo VI, para praticar a colegialidade e a subsidiariedade na Igreja. Nos longos anos do papado de João Paulo II, o Sínodo tornou-se um instrumento de confirmação de decisões da Cúria Romana. Circulou, durante esse Sínodo de 1997, uma lista de temas que os oradores eram proibidos de tocar, e se tocaram, obviamente, seu depoimento não apareceu em nenhuma síntese ou documento final.

Com as palavras do Papa Francisco: “Os bispos precisam fazer propostas corajosas”, entendi que na Igreja católica acabou o tempo de discursos e pensamentos proibidos sobre matérias pastoralmente relevantes. O Papa Francisco está nos convidando para desconstruirmos com ele o centralismo que fere a colegialidade. O que o Papa falou aos bispos durante a Jornada Mundial da Juventude – JMJ está nos discursos aos bispos brasileiros e ao Comitê de Coordenação do Celam. Todas as Conferências Episcopais Nacionais deveriam dedicar dias de estudo a esses textos preciosos: “Queridos Bispos, sacerdotes, religiosos e também vocês, seminaristas, que se preparam para o ministério, tenham a coragem de ir contra a corrente!”.

Desta delegação das propostas de reformas às regiões (princípio de subsidiariedade!), em que se sente a dor causada pela cristalização de estruturas caducas, emergem três tarefas: sentir novamente a dor do povo de Deus, causada por estruturas rígidas e leis complementares distantes do Evangelho; reaprender a coragem pastoral pela escuta do povo; e fazer propostas teológico-pastorais que possam sustentar as mudanças dentro dos limites da “ruptura inovadora”, contudo capaz de romper com o continuísmo da autorreferencialidade que isolou a Igreja cada vez mais.

Devemos também perguntar se questões fechadas pelo antecessor, como é o caso do sacerdócio da mulher, impossibilitam mudanças posteriores. Contra o “Roma locuta, causa finita”, caso exemplar da autorreferencialidade, deve-se ponderar que a salvação das “almas” é a lei suprema da Igreja.

IHU On-Line – Em termos gerais, qual tem sido a repercussão do papado de Francisco na Europa?

Paulo Suess – Com o Papa Francisco, a América Latina “exportou” sua versão mais simpática, autônoma e emancipada do “bem viver” a Roma e Europa. Digo isso para não idealizar o continente latino-americano e sua Igreja, como se já tivesse superado toda a forma de colonização e alienação. A Máfia existe não só na Sicília. Rouxinóis e aves de rapina se encontram por toda parte. Contudo, com o papa do fim do mundo, a Igreja da América Latina, até agora tratada com muitas suspeitas, chegou a Roma com a possibilidade de mostrar os avanços de uma Igreja testemunhal com a autoridade de propor uma pastoral a partir das periferias. No acerto da eleição de Mário Bergoglio há fatores geográficos, pessoais e providenciais. Depois de uma época de proibições e esquecimentos, o Papa Francisco representa o elo perdido entre o Vaticano II e a Igreja contemporânea.

Francisco é um produtor de sinais intercontinentais que garantem sua liderança mundial e que explicitam suas opções pastorais para o povo de Deus e o mundo, sem ter a necessidade de recorrer ao populismo ou à propaganda enganosa.

IHU On-Line – Em que temáticas especificamente considera que Francisco esteja inovando e propondo novos rumos à Igreja?

Paulo Suess – O recurso do Papa Francisco ao Vaticano II, sua capacidade de discernir entre o essencial do Evangelho e os fardos eclesiais, seu carisma de se comunicar de uma maneira direta e simples com o povo e seu olhar atento às periferias humanas criaram novas perspectivas de referencialidade eclesial.

Este papa vive a teologia do povo de Deus com grande liberdade (logo depois de sua eleição, na primeira aparição pede a benção do povo reunido na Praça de São Pedro); incentiva a colegialidade (G8 dos cardeais, ida da Cúria Romana, de ônibus, à casa de retiro); pratica a pastoral do encontro (desceu dos aposentos do Palácio Apostólico para morar na Casa Santa Martha); opta por uma Igreja pobre no meio dos pobres (opção por carros simples, viagem a Lampedusa, medidas disciplinares contra bispos de ostentação de conforto pessoal); enfatiza o método indutivo (questionário dirigido às famílias e comunidades para a preparação do Sínodo sobre a família).

Para muitos funcionários curiais e também para parte do episcopado mundial, o fenômeno Bergoglio é uma “loucura”. Quem sai depois de muitos anos do calabouço precisa um bom tempo para enxergar de novo a luz do dia.

No dia 6 de abril, assisti, com um grupo de brasileiros com uma faixa da Campanha da Fraternidade, ao Anjo do Senhor, na Praça de São Pedro. Lá de cima, na janela famosa do Palácio Apostólico, que para Bergoglio é apenas um palco, não uma moradia, o papa-pastor e o povo na Praça se entendem. Mas os andares intermediários são habitados por gente que fizeram carreira nesse edifício. Contam com a misericórdia de Francisco, mas vacilam entre resistência clandestina e adaptação.

IHU On-Line – Qual é a sua percepção sobre a recepção a respeito do Sínodo Extraordinário para a Família na Europa e no Brasil?

Paulo Suess – Creio que a recepção do Sínodo acontece com certa sincronicidade mundial. As distintas “brigadas de pensamento” atravessam todas as geografias. Um setor de leigos e leigas engajados recebeu os questionários na esperança de, finalmente, serem ouvidos em Roma. Já um pároco, na Alemanha, me dirigiu uma pergunta retórica: “Será que agora a verdade depende de pesquisas de opinião?”. Por toda parte senti certa desconfiança da base clerical ou leiga sobre os encaminhamentos dessas propostas. O medo de, novamente, se tratar de uma ouvidoria simulada para a lixeira, é grande. Conheço um pároco brasileiro que mandou registrar o envelope com as respostas na Nunciatura, temendo que o bispo não as enviasse corretamente. Contudo considero um grande avanço que o sínodo se debruça, num primeiro ato, sobre aquilo que o povo de Deus vive e pede.

Ao mesmo tempo, o Papa Francisco chamou o cardeal Walter Kasper, que durante o Consistório Extraordinário, nos dias 20 e 21 de fevereiro 2014, em Roma, falou sobre “O Evangelho da Família”. Novamente trata-se do método indutivo: O Papa pede para o povo opinar sobre o tema do Sínodo: “Desafios pastorais da família no contexto da evangelização” e, concomitantemente, procura com os cardeais esclarecer as margens da “ruptura inovadora”. Está desencadeado um processo sinodal. O Consistório Extraordinário está integrado no Sínodo Extraordinário em que se encontrarão realidade pastoral e doutrina eclesial. Só um ano depois, portanto em 2015, vai acontecer o Sínodo para tomar decisões. O Papa Francisco mostra de uma maneira exemplar o que significa “comunhão e participação” (Puebla, 1979), articulando colegialidade e povo de Deus, hierarquia das verdades e pastoral, tradição e conversão pastoral.

IHU On-Line – Como você avalia as resistências internas que o Papa Francisco encontra e qual é a sua estratégia de responder?

Paulo Suess – Com os novos ventos da costa argentina em Roma, não só parte da Cúria Romana, também bispos, padres e agentes pastorais, despreparados para esta mudança de clima, de Igrejas locais, pegaram um tremendo resfriado. Colocar o Banco do Vaticano em ordem, moralizar o setor corrupto da Cúria Romana e simplificar rituais herdados desde a era do Imperador Constantino – até aqui tudo bem. Desinstalar, porém, a Igreja toda através da exigência de uma missionariedade programática (ad gentes) e paradigmática (toda pastoral é missionária), esse suposto e real retorno à era pós-apostólica tem para muitos traços de um fundamentalismo anacrônico e causa o medo de perdas de segurança.

Outro setor eclesial tem medo de que o Papa não consiga segurar as mudanças, simbolicamente, apontadas por meio de uma reestruturação eclesiológico-pastoral com os quatro eixos de uma Igreja: programaticamente e paradigmaticamente missionária; pobre, para os pobres e no meio dos pobres; povo de Deus a caminho com real igualdade entre homens e mulheres; e descentralizada e participativa.

Até agora, as nomeações do Papa mostram rumo, evitam, porém, o favorecimento de um pensamento único. Não é só a misericórdia, muito enfatizada por Francisco, mas também a prudência pastoral que faz o Papa não excluir nenhum setor do conjunto das funções eclesiais. Ele confia em seu carisma de convencimento pela autenticidade e, em último caso, em seu poder de bater o martelo. Francisco sabe que não pode ser autor, diretor, coreógrafo e ator na mesma peça. Ele sabe também que cada herói necessita seu vilão. Se o vilão fica mais forte que o herói, a peça torna-se tragédia. Durante uma vida longa, Francisco adquiriu graça e astúcia suficientes para controlar os vilões que o rodeiam. Pelo resto, ele pede aos seus visitantes constantemente: “Rezem por mim!”.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br