Tiremos da lista dos mortos Aquele que está vivo!

(Gênesis 1,1-2,2 * Gênesias 22,1-18 * Exodo 14,15-15,1* Isaías 51,1-11 * Ezequiel 36,16-28 * Carta aos Romanos 6,3-11 * Salmo 117 (118) *  Mateus 28,1-10)

Tiremos da lista dos mortos Aquele que está vivo!

Como fazemos quando falece uma pessoa querida, neste sábado reunimo-nos em vigília para ruminar a dor da perda, para recapitular uma história, para regar as frágeis sementes da nossa esperança. A escuta atenta e ritmada da Palavra que cria e sustenta a vida e a esperança pode nos ajudar neste tempo de espera vigilante e de decisões responsáveis. As vigílias sempre têm o objetivo de assumir a herança humana e espiritual de quem partiu, levantar o olhar, contemplar o horizonte…

Sendo recordação, a vigília é também saudade, espera e vazio: o vazio da libertação perdida, do desejo de plenitude prometida, do futuro que é espera. É também um dolorido processo de despojamento dos estreitos conceitos, ambíguas ambições e despóticos senhores a fim de purificar nosso olhar e sintonizar nossa vida com o mistério de Deus. Deus assume esse vazio e nele faz sua morada! No início de tudo, o Espírito pairava sobre a terra informe e vazia… Pelo batismo, fomos sepultados com Cristo…

O vazio da sepultura não comprova a ressurreição, mas nos ajuda a intuir que as marcas dos pregos no corpo torturado não são a última palavra de Deus sobre a história. Na sepultura vazia, mulheres e anjos ensinam que o caos do lixo pode dar lugar a uma criação harmoniosa, que o mar ameaçador pode ser atravessado a pé enxuto, que os grupos dispersos podem ser reunidos, que os crucificados caminham à nossa frente rumo às fronteiras, onde novas possibilidades estão em gestação…

É verdade que o Dia ainda não amanheceu plenamente e a liberdade não alcançou todos os seres humanos. Mas os guardas do sistema tremem diante do vulto de mulheres e de homens que caminham corajosamente. O poder sobre a vida e a morte não está mais nas mãos deles! Precisamos nos abrir às novas possibilidades escondidas nas pessoas e nos caminhos da história, vibrar de alegria e sair correndo para anunciar aos outros esta Boa Notícia: “Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito!”

As mulheres madrugadeiras nos ensinam que os sinais palpáveis da ressurreição só podem ser tocados na periferia – “ele vai à vossa frente para a Galiléia. Lá vós o vereis!” – ou na missão – “Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galiléia. Lá eles me verão…” É neste caminho de êxodo missionário que as duas mulheres reconhecem o Ressuscitado que vem ao encontro delas pedindo que se alegrem e não tenham medo. O lugar onde ele estava perde importância diante do lugar onde ele está agora!

Como cristãos, somos chamados a completar em nossos corpos os sofrimentos de Cristo, a prolongar os sinais do esvaziamento por amor e fazer germinar as sementes do Reino de Deus. A ressurreição se multiplica como semente no testemunho e nas iniciativas dos discípulos e discípulas, comunidades e Igrejas, grupos e movimentos. Os sinais são pequenos, mas reais e promissores. Como naquela parábola, a semente é pequena, mas tem um impressionante dinamismo de crescimento.

O batismo, recordado nesta vigília, expressa este dinamismo pascal na vida de cada um de nós e da comunidade eclesial. Nele, dizemos que por Cristo, com Cristo e em Cristo fomos mortos e sepultados para os interesses egoístas e nascemos para uma outra realidade. Mortos para a lei que nos pede para levar vantagem em tudo e fechar os olhos ao tráfico humano, somos livres para começar uma vida nova, no caminho aberto por Jesus Cristo. Morreu o velho homem, nasceu uma nova criatura!

Jesus é como uma pedra que os construtores descartaram mas Deus transformou em pedra de ângulo, em pedra que sustenta todo o teto em forma de abóbada. Por isso, a Páscoa pede que abramos os olhos e as portas às pessoas e grupos sociais que são descartados como desnecessários ou eliminados como incômodos. Se não os tivermos no coração das nossas preocupações e projetos eclesiais, nossa fé é construção sobre a areia, nosso amor pode virar patologia e nossa utopia se deteriora em ideologia.

Deus Pai e Mãe, que nos criastes com a dignidade de filhos e filhas e nos chamais à verdadeira liberdade. Aqui estamos com as mãos calejadas nas semeaduras e os corpos grávidos de louca esperança. Aqui viemos sem perfumes, trazendo apenas com a ansiedade do amor e as marcas das lutas que travamos. Tua Palavra confirma que teu desejo é que todos tenhamos liberdade e vida. As testemunhas da primeira hora nos ensinam que teu filho vive e marcou encontro conosco longe dos sedutores centros de poder. Ensina-nos a afagar a terra e fecundar o chão, nesta propícia estação de renascimento. E que todos vivamos para universalizar a liberdade para a qual Cristo nos libertou. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf