Caminhada Penitencial para a Serra

Dom Benedito Araújo

Bispo de Guajará-Mirim (RO)

A concentração

Minha primeira caminhada penitencial para a Serra foi na quaresma de 2012, precisamente na sexta – feira santa, dia 06 de abril. Fiquei sabendo da grandeza deste momento e despertei muitas curiosidades; como afirma o documento de Aparecida: “é necessário cuidar do tesouro da religiosidade popular de nossos povos, para que nela resplandeça cada vez mais “a pérola preciosa” que é Jesus Cristo, e seja sempre novamente evangelizada na fé da Igreja e por sua vida sacramental” (AP 549).

 Ao mesmo tempo, no meu íntimo, os questionamentos em relação à infra-estrutura para melhor atender os caminhantes com espírito verdadeiramente penitencial e de muita oração, outros que aproveitavam da oportunidade para fazer uma caminhada amiga, um amanhecer diferenciado.

Aos poucos, minhas curiosidades foram sendo desvendadas. Primeiro, a grande concentração no posto de gasolina Santa Terezinha, no ingresso da cidade de Guajará – Mirim, às 4 horas da manhã; fiquei surpreso de ver pessoas chegando de todos os lados, uns carregando terços, velas, bicicletas, descalços, mochilas nas costas, lanternas, jovens adultos e crianças, com comportamento penitente, marcado pelo espírito do reencontro e memória de quantas caminhadas já tinham participado.

A caminhada

A espiritualidade do caminho é uma constante na vida do povo de Deus, e de modo extraordinário na formação da identidade do povo brasileiro, basta lembrar as romarias, procissões, santuário, oratórios, promessas, peregrinações, etc.

Na espiritualidade do caminho o “fenômeno massa” merece uma atenção pedagógico-religiosa toda especial. Pois “a piedade popular penetra delicadamente a existência pessoal de cada fiel e, ainda que se viva em multidão, não é uma “espiritualidade de massas”. Nos diferentes momentos da luta cotidiana, muitos recorrem a algum pequeno sinal do amor de Deus: um crucifixo, um rosário, uma vela que se acende para acompanhar o filho na enfermidade, um Pai Nosso recitado entre lágrimas, um olhar entranhável a uma imagem querida de Maria, um sorriso dirigido ao Céu em meio a uma alegria singela” (AP 261).

O tempo forte da quaresma, marcado por tantas singularidades, sobretudo por significativas celebrações, convida sempre para a vivência real da espiritualidade do caminho.

Este tempo forte, tempo da graça, “nos permite refazer à peregrinação Pascal de Jesus, descortina um caminho espiritual em que retomamos o nosso batismo, rumo à Páscoa, ponto alto do ano litúrgico, mistério fundamental de nossa fé. Cada celebração, neste tempo, deve ser experiência de êxodo, de passagem da escravidão para a liberdade, do individualismo para a solidariedade”.

Ao longo da caminhada para a serra, testemunhei a seriedade de uma fé viva, marcada pelo espírito orante, pés caminhantes, silêncio interior, mesmo diante daqueles que tinham dificuldades de silenciar. Em vários momentos alguns “psiuuusss”, chamavam atenção de alguns que não entravam no verdadeiro espírito da caminhada. Segundo os cálculos, eram umas dez mil pessoas!

Na frente da grande caminhada, a cruz se sobressaia convidando a caminhar sentindo o pulsar do coração, meditando os passos de Jesus para receber o vigor, a iluminação, à abertura do coração e a esperança da vitória, vitória conquistada por Jesus na cruz e prometida a todos nós no dom cotidiano da vida.

Distante, lá no alto, a majestosa Serra dos Parecis, iluminada pelo brilho das estrelas! Alguns momentos se escondendo nas nuvens do amanhecer e no seu silêncio, preparada para acolher os peregrinos veteranos, alguns de outras denominações religiosas, calouros e curiosos da caminhada para a serra.

No topo da Serra

Chegamos! É a exclamação de todos que ofegantes chegam ao topo da serra, marcada pela parafernália do progresso que parou no tempo. De lá, os peregrinos vislumbram a beleza do horizonte infinito, observando lá embaixo, as estradas, os caminhos percorridos, simplesmente como rabiscos que cortam o verde da região.

Nesta chegada, percebi duas atitudes que tornam o momento ainda mais valioso: A oração e a partilha.

A oração continua até que todo o ritual seja cumprido: reflexão via sacra, cânticos, jaculatória e o convite para continuar celebrando o mistério da vida, morte e ressurreição do Senhor.

Após a conclusão deste momento, acontece um grande ágape fraterno. É hora do café da manhã e do lanche partilhado. É marcante ver o empenho de casais, famílias e jovens redistribuídos em diversas equipes de trabalho que de forma incansável, garante o bem estar de todos.

Além da partilha “oficial” aos cuidados do ECC – Encontro de Casais com Cristo, muitas famílias vão preparadas para esse momento de partilha. Após a fadiga da caminhada, poder partilhar daquilo que é oferecido por um e por outro, torna-se também um momento de celebração.

Da caminhada, brota sempre uma lição para a vida, à proposta de “escolher entre caminhos que conduzem à vida ou caminhos que conduzem à morte (Cf. Dt 30,15). Caminhos de morte são os que levam a dilapidar os bens que recebemos de Deus através daqueles que nos precederam na fé. São caminhos que traçam uma cultura sem Deus e sem seus mandamentos ou inclusive contra Deus (…), caminhos de vida verdadeira e plena para todos, caminhos de vida eterna, são aqueles abertos pela fé que conduzem à “plenitude de vida que Cristo nos trouxe” (AP 13).

Às oito horas, com muita tranquilidade, todos descem da serra e muitos, às 15hs estarão reunidos nas suas comunidades de origem para a grande celebração da Paixão do Senhor.

Anúncios