Quando João XXIII escapava do Vaticano

O ajudante de câmara do papa Roncalli, Guido Gusso, conta algumas peripécias do Papa Buono

Cidade do Vaticano, 02 de Abril de 2014 (Zenit.orgRocio Lancho García | 157 visitas

O desejo de “dar algumas escapadas” do Vaticano parece que fez parte da vida de mais do que um papa! É o que nos conta Guido Gusso, que foi ajudante de câmara de João XXIII e conhecia muito bem o papa Roncalli. Gusso participou da coletiva de apresentação do projeto de digitalização dos arquivos da Rádio Vaticano. Ele trabalhou durante cinco anos com Roncalli no patriarcado de Veneza e continuou como auxiliar dele depois que o patriarca foi eleito papa e assumiu o nome de João XXIII.

Certa vez, passeando pelos jardins do Vaticano, o papa Roncalli disse a Gusso: “O passeio é sempre este aqui! Leve-me à fonte do Janículo ou à Villa Borghese”. E Gusso respondia: “Santidade, não podemos!”. E o papa rebatia: “Mas como é que não? Pegue o carro e vamos”. E a cena se repetia quando o papa estava em Castel Gandolfo.

Gusso contou um caso em que eles “escaparam” da vigilância dos gendarmes e guardas suíços, já que o papa não se sentia à vontade com tanto protocolo ao seu redor onde quer que fosse: “Eu contei ao papa que tinha estado em Patroni del Vivaro, perto de Roma, um lugar parecido com Sappada, na nossa região. Ele tinha curiosidade, queria ver. E falou assim: ‘Vamos fazer uma coisa. Tem uma porta perto do cemitério de Albano. Consiga as chaves. Abra e vamos deixar aberto uns dez dias, assim ninguém vai saber o que está acontecendo’. Depois, um dia que estávamos nos jardins, ele me disse: ‘Vamos pegar o carro, damos alguma volta a mais para despistar os gendarmes, você abre a porta e nós vamos lá’. E foi assim que os dois visitaram Vivaro. Quando chegaram ao trevo entre Artena e Frascati, Gusso perguntou ao papa aonde ele queria ir e o papa respondeu: ‘Vamos voltar para casa, porque se não…’. Quando chegaram, os gendarmes já estavam em crise, assim como a polícia italiana. “Vocês tinham que ver a cara dos guardas suíços…”, recordou Gusso, divertido.

O antigo ajudante de câmara do “Papa Buono” citou mais duas situações em que João XXIII “escapou” do Vaticano. Em uma delas, ele foi visitar o embaixador inglês que estava hospitalizado. Em outra, visitou um jornalista. Já da residência de Castel Gandolfo, eles “escaparam” para ver os trabalhos das Olimpíadas de Roma, em 1960.

Mas nem tudo eram sustos para os gendarmes. Naquela época, os gendarmes não podiam se casar antes dos 28 anos, explicou Gusso. “Havia um que tinha 24 anos. Ele veio falar comigo e se lamentou porque não tinha dinheiro para se casar. Eu contei ao papa e ele deu um donativo para que o gendarme pudesse comprar os móveis da sala”, relatou Guido aos jornalistas.

Outra das lembranças girou em torno do conclave em que Roncalli foi eleito papa. “Ele me pediu para ir à Domus Mariae pegar alguns objetos pessoais. Eu pedi permissão ao cardeal Tisserant (então decano do colégio cardinalício) e o cardeal me respondeu: ‘Ainda estamos em conclave, não podemos sair. Se você sair, eu o excomungo'”. Gusso contou o caso a Roncalli, que replicou: “Vá e diga ao cardeal que, se ele excomungar você, eu desexcomungo”.

Depois que a fumaça branca indicou a eleição do sucessor de Pedro, chegaram ao Vaticano, vindas de Bérgamo, algumas caixas com os livros e quadros de Roncalli. O Vaticano se encarregou de colocar os quadros, mas o resultado ficou ruim. O papa João XXIII pediu então que Gusso conseguisse pregos, martelo e escada. E eles mesmos recolocaram os quadros.

Outra história engraçada aconteceu com Cesidio Lolli, então vice-diretor de L’Osservatore Romano. Ele foi ao encontro de João XXIII para corrigir alguns textos e se ajoelhou diante da sua escrivaninha. “Mas o que é que você está fazendo? Sente-se na cadeira!”, disse logo Roncalli, espantado.

Antes das audiências das quartas-feiras, João XXIII lia o evangelho do dia. O papa levava o discurso preparado por escrito e o lia para o público, na Sala das Bênçãos. A Sala Paulo VI não existia ainda. Depois, ele fechava a pasta e dizia para as pessoas: “Terminamos. Agora vamos dizer umas palavras entre nós!”. E o ajudante completa que “quando ele falava sem os papéis, suas palavras eram maravilhosas”.

Quando trabalhava com Roncalli em Veneza, Gusso pediu certa vez que o patriarca o ajudasse a encontrar outro trabalho, porque queria se casar e estava ganhando pouco. Roncalli respondeu: “Não se preocupe. O seu futuro está seguro, ninguém vai tocar em você”. E pediu que ele lesse o evangelho de Mateus. Depois de um ano, Roncalli virou papa e sua vida mudou de um dia para o outro. O papa quis que o ajudante continuasse sempre próximo, em especial quando adoeceu. Naquela época, Gusso lia o Osservatore Romano à noite para o papa enfermo.

O ex-ajudante se lembra também da primeira impressão de Roncalli como papa: “Olhamos para fora e vimos a Praça de São Pedro vazia e escura”. Para ele foi uma “decepção”, porque estava acostumado com Veneza, onde a Praça de São Marcos estava sempre cheia de música e luzes.

Gusso contou que João XXIII só “lhe puxou as orelhas” uma vez, dois dias antes de morrer. Naqueles dias, seus irmãos e sua irmã foram visitá-lo. Depois, ele conversou com Gusso, que recorda: “Ele me deu um pequeno sermão. O que não tinha me dito em dez anos, ele me disse antes de morrer: pediu que eu recorresse mais aos sacramentos. E falou também: ‘Não se apegue ao dinheiro, porque com o dinheiro você não vai fazer nada na vida’. E disse: ‘Se você precisar, em qualquer momento, me chame, que eu vou responder’. E ele cumpriu, porque em vários problemas da vida eu fui pedir socorro e ele sempre me respondeu”.

Ao terminar seu testemunho, Gusso declarou que o papa Francisco se parece muito com João XXIII: “Ele tem a mesma bondade, se preocupa muito com os pobres e com os humildes”. E contou que, depois de participar de uma missa com Francisco, foi saudá-lo e lhe disse: “O senhor é quase igual ao papa João”. O papa argentino respondeu dando a sua simpática e característica risada.

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