Mulheres: de ontem… de hoje… de sempre…

Quando nos debruçamos sobre a história da humanidade, percebemos a presença feminina, em todos os tempos, rompendo fronteiras e quebrando tabus, correspondendo a uma intuição divina. É conhecendo a história que fatos e acontecimentos vêm dar força e embasar notórias posições femininas na luta diária, ontem… hoje…sempre…

Devemos conhecer a nossa história para não sermos um barco à deriva; devemos ser profetizas; devemos sempre buscar um porto seguro, tendo a consciência de deveres e responsabilidades para que a vida sempre floresça e valha a pena ser vivida.

A vitória da mulher é inquestionável, quando se constata que as suas bandeiras mais radicais tornaram-se parte integrante da sociedade. Mulheres mães, mestras, religiosas, advogadas, operárias, médicas, cientistas, teólogas, juízas, comerciantes, domésticas, servidora pública, políticas etc… fazem parte do nosso dia a dia e ninguém nem imagina um mundo diferente.

Ao longo do século XVIII, a mentalidade vigente, herdeira legítima do colonialismo, dava pouco valor à instrução feminina. Quando começa o século XIX, as mulheres brasileiras, em sua grande maioria, viviam “enclausuradas em antigos preconceitos e imersas muna rígida indigência cultural”. Urgia levantar a primeira bandeira que não podia ser outra senão o direito básico de aprender a ler e a escrever (então reservado ao sexo masculino).

A primeira legislação, autorizando a abertura de escolas públicas femininas, data de 1827. Até então as opções eram uns poucos conventos, que guardavam as meninas para o casamento ou vida religiosa, raras escolas particulares nas casas dos abastados e das professoras (ensino individualizado), todos se ocupando apenas com as prendas domésticas.

Um dos nomes que se destacam nesse momento é o de Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810 – 1885 – pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto). Ela nasceu no Rio Grande do Norte e residiu em Recife, Porto Alegre e Rio de Janeiro, mudando-se posteriormente para a Europa. Nísia Floresta foi uma das primeiras mulheres no Brasil a romper os limites do espaço privado e a publicar textos em jornais da chamada “grande imprensa”.

Educadora, escritora e poetisa, teve o primeiro livro “Direito das Mulheres e injustiça dos Homens” publicado em 1832. Foi a primeira publicação brasileira a tratar do direito das mulheres à instrução e ao trabalho, e a exigir que elas fossem consideradas inteligentes e merecedoras de respeito. Nísia Floresta assimilara algumas concepções estrangeiras e devolvia um produto intelectual, onde cada palavra é vivida e conceitos surgem da própria experiência, em defesa das mulheres, dos índios e dos escravos.

É no final do século XIX, no período republicano, que se constrói o trinômio: mulher-mãe-professora.
Carlos Leôncio da Silva Carvalho (1847 – 1912), então Deputado Geral (equivalente hoje a Deputado Federal) por São Paulo de 1878 a 1880, por meio de Decreto-Lei 7247 de 19 de abril de 1879, reformou as instituições públicas primárias e secundárias no município da corte e o ensino superior em todo o Império. Com a Reforma Leôncio de Carvalho, foi autorizada a matrícula de mulheres nas escolas superiores. A autorização legal, entretanto, não mudou a situação em vista dos arraigados preconceitos sociais. A partir de 1881 as três primeiras mulheres a concluir o curso de medicina no Brasil foram as gaúchas Rita Lobato Velho Lopes, Ermelinda Lopes de Vasconcelos e Antonieta Cesar Dias.

A medicina, assim como as carreiras militar e eclesiástica, eram então atividades consideradas próprias do sexo masculino. Em uma publicação de 1883, intitulada “Apontamento e Comentários sobre a Escola de Medicina Contemporânea do Rio de Janeiro”, seu autor que assinava Leandro Malthus, assim se referia a estudantes do sexo feminino no Curso Médico: “São desertoras do lar. São, finalmente, os inconscientes arautos que nos vêm mostrar os prenúncios funestos da dissolvência da família”.

A liberação e a aceitação das mulheres em várias profissões se deram lentamente e com muita resistência.
Myrthes Gomes de Campos (1875 – 1965), fluminense de Macaé-RJ, foi a primeira mulher a exercer a advocacia no Brasil em 1898. Foi também a primeira a fazer parte do Instituto dos Advogados Brasileiros, rompendo os preconceitos de uma sociedade eminentemente machista e patriarcal. Outra conquista de Myrthes: contra toda a ideologia da época, que reservava o espaço doméstico às mulheres, ela, uma representante feminina, ingressa pioneiramente num Tribunal de Justiça. Depois de muita luta, a Comissão de Justiça, Legislação e Jurisprudência pronunciou-se a favor: “[…] não se pode sustentar, contudo, que o casamento e a maternidade constituam a única aspiração da mulher ou que só os cuidados domésticos devam absorver-lhe toda a atividade; […] não é a lei, é a natureza, que a faz mãe de família…”.

As mulheres que navegam por todos os mares, não deixam morrer seu espírito lúdico, como a primeira maestrina e compositora brasileira Francisca Edwirges Neves Gonzaga (Chiquinha Gonzaga -1847 – 1935). Autora da primeira marcha carnavalesca (Abre Alas – de 1899) e de memoráveis valsas e chorinhos é também a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. Por ser uma mulher muito à frente de seu tempo, Chiquinha Gonzaga foi aplaudida por poucos e escandalizada por muitos.

Raquel de Queiroz (1910-2003), com o “Quinze”, uma das obras inaugurais do romance regionalista brasileiro, publicado em 1930, alcança lugar de destaque na literatura brasileira. Acabou tornando-se a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras, em 1977 ocupando a cadeira de número 5. O poeta Ascenso Ferreira querendo elogiar a obra da escritora, comenta: “É um livro de macho”, deixando-a brava.

Mas, a evolução social da mulher vai além da intelectualidade. Foi a mulher operária que lutou, venceu e inspirou a celebração do Dia Internacional da Mulher no dia 8 de março. Com títulos ou sem títulos, com premiações ou não, as lutas femininas não passam. A história dessas mulheres e de tantas outras, de camadas sociais diversas e profissões diferentes, nos faz rever posicionamentos e posturas de um universo feminino inspirador de mudanças, persistência, dignidade e coragem.

Essa mulher de ontem… de hoje… de sempre… traz no espírito a alma femininamente poética de Cecília Meireles ( 1901 – 1964 ), que a traduz em versos e parece revesti-la de couraça de guerreira e fragilidade de flor: “Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”.

* Maria das Graças Cordeiro de Medeiros é pedagoga aposentada, atuante na Pastoral do Batismo e no Movimento da Terceira Idade da Paróquia Maria Mãe de Deus, Cabedelo, da Arquidiocese da Paraíba.

Fonte: Maria das Graças Cordeiro de Medeiros / Revista Missões

Foto Guinea P. 154

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