Sínodo sobre as famílias: as respostas soam como estridente silêncio no Brasil. Entrevista Helio Amorim

Consulta do Vaticano em preparação ao Sínodo dos Bispos sobre a Família

IHU On-Line – Como o questionário do Vaticano foi discutido e distribuído pela CNBB? A CNBB tem uma diretriz de como os bispos devem proceder em relação à distribuição e resposta do questionário?

Helio Amorim – Não conheço qualquer iniciativa visível da CNBB para a divulgação ampla do questionário. Aparentemente foi enviado aos bispos e por estes (todos?) encaminhado às paróquias, não aos meios de comunicação, para conhecimento amplo dessa consulta inédita do Papa para estimular respostas de leigos, como foi feito em outros países. Posso estar sendo injusto, mas acho que houve uma reação silenciosa da Igreja local, indiferente à difusão efetiva desses questionamentos provocativos.

IHU On-Line – Como vê a iniciativa do papa Francisco de pedir que os leigos sejam consultados e inclusive respondam ao questionário?

Helio Amorim – A iniciativa surpreendente do papa Francisco abre caminho para uma nova atmosfera de confiança no laicato e a expectativa de profundas mudanças nas estruturas e numa visão de Igreja participativa, menos autoritária e defensiva de normas e princípios ultrapassados na história contemporânea. O êxodo de fiéis católicos para outras igrejas ou para nenhuma igreja é impressionante. Na Europa, muito mais do que na América Latina. Também nos Estados Unidos, esse retrocesso é importante e ganham expressão maior os setores mais conservadores da Igreja norte-americana.

IHU On-Line – Quais questões foram mais polêmicas de serem respondidas?

Helio Amorim – Avaliamos, sem uma consulta específica, mas imersos na vida da Igreja, e observamos que muitos católicos, adultos na fé e ativos na transformação da sociedade, não foram incentivados a responder ao questionário. Entretanto, estamos seguros de que as respostas deles às perguntas mais provocativas estariam próximas das que encaminhamos. Referem-se à teimosa norma da indissolubilidade do casamento cristão, sem a possibilidade de novo casamento, talvez mesmo mais cristão do que o desfeito, ante realidades cruéis e desumanas da relação conjugal fracassada; por consequência, a “excomunhão” sem lógica nem caridade dos recasados, proibidos de participar efetivamente da eucaristia, portanto o único “pecado” sem perdão (o que não se aplica ao assassino da esposa que, tendo se confessado e se arrependido, foi perdoado).

Também, a proibição imposta ao casamento dos padres com a fuga pela renúncia crescente da ordem (em nossa equipe participam quatro felizes padres casados); a já quase extinta neurose eclesiástica contra o uso de preservativos médicos para regular uma paternidade responsável que já prejudicou, por décadas, casais cristãos; e outras questões centrais no campo do casamento e da família, temas do sínodo deste ano.

IHU On-Line – A problemática da família ainda é valorizada nas discussões da Igreja brasileira? Por onde perpassa esse debate?

Helio Amorim – O tema família é muito valorizado e caro a todos os católicos, leigos e clérigos, mas os aspectos valorizados não são os mesmos para todos. Ainda predomina uma visão da família tradicional e seus valores absolutos, que não se atualizaram para acolher os novos desafios da sociedade moderna ou pós-moderna.

“Percebe-se claramente essa quebra de paradigmas nas novas gerações, às vezes como impulso de autoafirmação”

O cenário mudou. Os atores mudaram. Casais divorciados e recasados, antes evitados socialmente e vistos por muitos como exceções lamentáveis, são hoje tranquilamente acolhidos sem restrições ou rejeição social. Nada obstante, a família de casados ou recasados segue muito valorizada, mesmo pelos jovens que, muitas vezes, constituem sua nova família dispensando ritos religiosos ou mesmo legais. São posturas talvez provocativas para a sociedade, própria dessa fase juvenil. Mais tarde, acabam aceitando esse formalismo, após “um tempo de prova”.

O fato é que se percebe claramente essa quebra de paradigmas nas novas gerações, às vezes como impulso de autoafirmação. Entretanto, pode-se afirmar que a instituição família segue muito valorizada por todos, e sua problemática é estudada e cuidada por muitas organizações e movimentos de inspiração humanística e religiosa.

IHU On-Line – Qual a contribuição específica que a experiência da Igreja do Brasil pode dar ao Sínodo?

Helio Amorim – Sendo o povo brasileiro ainda predominantemente católico, embora os índices estatísticos confirmem uma cadência para apenas metade da população do Brasil, com tendência de queda, essa realidade deveria ser levada e discutida no Sínodo. Quais as razões dessa dispersão? Acreditamos que os bispos tenham a resposta. Tivemos décadas de papados incapazes de viver uma Igreja cativante, atuante fora dos seus limites, denunciando toda e qualquer injustiça ou violência no mundo, repreendendo governos e grupos que mantêm destruidores e sangrentos conflitos, acirrando ódios que atravessam gerações.

O papa Francisco inaugurou uma postura proativa, arquivou o silêncio e a prudência, está atento ao que se passa no mundo e não se cala. Os discursos e posicionamentos desse primeiro ano de papado já mudaram a face da Igreja, que se torna não só portadora do anúncio evangélico, mas deixa de ser alienada ou pouco corajosa na denúncia que é inseparável daquele anúncio.

“O papa Francisco inaugurou uma postura proativa, arquivou o silêncio e a prudência, está atento ao que se passa no mundo e não se cala”
IHU On-Line – Alguns setores da Igreja foram contrários ao questionário. Ao mesmo tempo grupos de católicos divulgaram o questionário nas redes. Como vê ações como essa? O que elas indicam?

Helio Amorim – Creio que Francisco já sabe ou mesmo sabia antes o que o esperava por essa postura ausente do Vaticano há tanto tempo. O que já se percebe é uma reação de grupos mais conservadores, com medo das consequências esperadas dessa postura crítica exigida dos cristãos. Já não se pode tolerar a passividade e a acomodação. As injustiças estão por toda parte nos países, cidades, bairros onde residimos e nas nossas próprias famílias. Dois terços da população mundial não têm recursos para atender suas necessidades básicas, enquanto do outro lado prevalece o desperdício de bens e dinheiro para manter o conforto e segurança dos abastados. Esse quadro é injusto e instável, gerador de guerras e mortes. Não pode prevalecer por futuras gerações. O papa assumiu essa missão e logo desencadeou falas e gestos concretos. Deus o proteja.

IHU On-Line – Já é possível avaliar quais são os resultados da distribuição do questionário? Já está sendo feita uma síntese das respostas?

Helio Amorim – Para mim, as respostas soam como estridente silêncio. Nada na mídia, nada nas falas da Igreja para a população majoritariamente católica (ainda). Certamente uma síntese já está sendo feita no Vaticano, talvez por amostragem, por ser impossível processar centenas de milhares de respostas em sete idiomas. Na verdade o importante foi o movimento provocado de avaliação crítica dos cristãos em seus países, desencadeado mundo afora, mesmo sabendo ser impossível a leitura senão de uma pequena amostragem de questionários respondidos.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

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