Supressão e restauração da Companhia de Jesus, 200 anos depois

19/02/2014 | IHU On-Line

Para entender os motivos que levaram à Supressão da Companhia de Jesus em 1773, é preciso perguntar-se “por que” e “para que” os jesuítas foram expulsos de vários países, sendo reduzidos a pouco mais de cem membros durante 41 anos. Em entrevista concedida à IHU On-Line, por telefone, o padre italiano Ilário Govoni conta que, anos antes da Supressão, missionários jesuítas que viviam no Brasil foram perseguidos pelos reis de França, Portugal e Espanha, como uma espécie de “‘balão de ensaio’ para ver se as autoridades conseguiam desautorizar os jesuítas e limitar suas ações”.

Segundo ele, “o ‘Pacto de Família’ dos reis de Portugal, França e Espanha era o fato mais imediato, liderado por Pombal, para demonstrar que, realmente, a Igreja, por meio da Companhia de Jesus, gerava mal-estar na sociedade, os reis ficavam incomodados pela contestação do regalismo e os jesuítas eram culpados disso. Talvez tenha sido exatamente no Brasil onde começou a se delinear o projeto da Supressão da Companhia de Jesus, que tinha de enfrentar as ideias do ‘déspota esclarecido’ Pombal”.

Ilário Gonovi acaba de traduzir e publicar o livro Tratado da Vida e Império do Anticristo, escrito pelo padre Gabriel Malagrida, que foi condenado como herege pela Inquisição em 1761, 12 anos antes da Supressão da Companhia. De acordo com ele, Malagrida foi um personagem importante nos anos que antecederam a extinção da Companhia, especialmente por realizar uma crítica em relação à atuação dos jesuítas no Brasil. “Ele prevê a destruição da Companhia e, sobretudo, é interessante o Capítulo Quinto de o Anticristo, no qual ele, em conversa com padre Antônio Vieira, analisa toda a atuação dos jesuítas como missionários e diz que foram inocentes manipulados, porque prepararam mão de obra barata – os índios que viviam nas reduções – para os colonos. (…) É muito crítico em relação à ação pastoral missionária dos jesuítas nesse período”, relata.

Neste ano, os jesuítas celebram o bicentenário da Restauração da Companhia de Jesus, que foi restaurada canonicamente em 1814, pelo papa Pio VII. Sobre o momento, Ilário Govoni é enfático: “Se por Restauração entendemos voltar a uma situação anterior danificada, percebemos que a expressão Restauração da Companhia de Jesus não é muito apropriada, inclusive, porque ela nunca foi extinta totalmente. Parece-me que influiu na mentalidade da época a expressão utilizada, após o declínio de Napoleão, para reprogramar a Europa com os princípios da Restauração e Legitimidade, tão próprios do Congresso de Viena (1815)”.

Do delta do Rio Pó, na Itália, onde nasceu, em 1936, Ilário Govoni veio ao Amazonas para descobrir as riquezas culturais do passado colonial e atua como missionário no Brasil há mais de 50 anos. É padre da Companhia de Jesus, formado em Filosofia e Teologia no Brasil, e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma.

Por ocasião do bicentenário da Restauração, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, em parceria com o Programa de Pós-Graduação – PPG em História, promove o XVI Simpósio Internacional IHU. Companhia de Jesus. Da Supressão à Restauração nos dias 10 e 13 de novembro de 2014.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais os motivos que levaram à supressão da Companhia de Jesus? Como esse processo aconteceu no Brasil?

Ilário Govoni – A resposta parece-me que deve considerar dois aspectos: o do “por quê?” e o do “para quê?” A primeira seria a efetividade ou realização do fato, e a segunda seria o objetivo, a finalidade, o que se queria alcançar com a Supressão da Companhia de Jesus. Parece mais fácil dizer o “por quê?”, pois conta com fatos concretos, que se iniciaram no Grão Pará (norte do Brasil) já em 1755, quando se tratava da revisão do Tratado de Limites com Espanha pelo irmão de Pombal, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, o qual encontrou má vontade por parte dos jesuítas em Trocano (Nova Borba, PA). Deve-se igualmente falar das Reduções do Paraguai, que naqueles anos deviam se transferir ao domínio de Portugal. Já quanto ao “para quê?” as raízes eram mais profundas e perpassavam na polêmica dos jansenistas com os jesuítas e o regalismo. Poder-se-ia dizer que o “Pacto de Família” dos reis de Portugal, França e Espanha era o fato mais imediato, liderado por Pombal, para demonstrar que, realmente, a Igreja, por meio da Companhia de Jesus, gerava mal-estar na sociedade, os reis ficavam incomodados pela contestação do regalismo e os jesuítas eram culpados disso. Talvez tenha sido exatamente no Brasil onde começou a se delinear o projeto da Supressão da Companhia de Jesus, que tinha de enfrentar as ideias do “déspota esclarecido” Pombal.

No Brasil os jesuítas tiveram problemas com os colonos, que reagiram contra a defesa “intransigente” dos padres em defesa dos índios. No país, a expulsão dos jesuítas iniciou em 1755, quando, atendendo ao projeto amazônico pombalino de fazer do Brasil e do Grão Pará uma área de experimentação modernista com a Companhia de Comércio, Pombal mandou expulsar os missionários das mais de 50 missões ou aldeias indígenas localizadas às margens esquerda e direita do Rio Amazonas, trocando o cruzeiro da aldeia com o pelourinho das vilas. A resistência dos missionários da Amazônia foi a ocasião da expulsão do primeiro grupo de 21 jesuítas em 1757 e, posteriormente, em 1759 e 1760, foram expulsos mais 600 jesuítas de todo o Brasil, de Portugal e de seus domínios.

“No Brasil os jesuítas tiveram problemas com os colonos, que reagiram contra a defesa “intransigente” dos padres em defesa dos índios”
Os jesuítas foram expulsos porque eles atrapalhavam, na medida em que ofereciam um programa de autonomia dos índios nas aldeias. O padre Malagrida teria sido o mentor intelectual desta reação contra o projeto de Pombal. Até se suspeitava que Malagrida, com seus Exercícios Espirituais, no Brasil e em Lisboa, em que se reuniam estes leigos, estivesse tramando contra o governo.

Em 1759, Malagrida foi preso no cárcere da Inconfidência como mentor intelectual da “conjuração dos Távoras”. Essa perseguição inicial aos padres do Brasil era um “balão de ensaio” para ver se as autoridades conseguiam desautorizar os jesuítas e limitar suas ações.

IHU On-Line – Qual era o debate político e intelectual dos séculos XVIII e XIX em meio aos quais ocorreram a Supressão e a Restauração?

Ilário Govoni – Justamente neste “intermezzo”, ou, entre as balizas da Supressão (1773) e Restauração (1814), quando, naqueles 41 anos, não havia jesuítas no meio, é que ocorreram os grandes eventos políticos, econômicos e culturais que marcaram a transição da Idade Moderna para a Contemporânea, que foram: a Revolução Francesa, a Revolução Industrial e a Epopeia napoleônica.

O debate político e intelectual se dava entre o poder absoluto dos reis e as propostas vindas da Inglaterra e da França, no sentido de separar os poderes do Estado e criar um parlamento efetivo. Ou seja, era um debate do absolutismo versus o iluminismo. Nesta época surgiram ideias novas com Montesquieu, que propõe a separação dos poderes políticos. Na Inglaterra, nesse período da Supressão, em meados do século XVIII, também havia o capitalismo eficiente da Revolução Industrial, quer dizer, quem produzia, sabia produzir muito bem. E no cenário brasileiro havia exploração de mão de obra indígena pela elite política e intelectual.

Napoleão deu face nova à Europa, executou uma modernização do Estado, mantendo uma vantajosa separação entre “o trono e o altar”. Após o Congresso de Viena (1815), contudo, houve uma tentativa de voltar ao absolutismo e “recosturar” politicamente a Europa ao modo antigo. A essa tentativa houve uma reação liberal e católica, e parece que o papa Pio VII, que quis a restauração dos jesuítas em 1814, com aquela expressão de “chamar de volta os generosos remadores da barca de Pedro na tempestade”, queria que os jesuítas voltassem a batalhar pela Igreja, só que os tempos tinham mudado.

Os jesuítas, depois da Restauração, estavam despreparados em relação ao aparelho que tinham antes da Supressão, quer dizer, o sistema de escolas, universidades, colégios e pensadores notáveis. Depois da Supressão tiveram de recomeçar com muita humildade e com a missão de tentar ajudar os outros.

IHU On-Line – Investigações recentes sobre a Supressão da Companhia no mundo mostram que o papa Clemente XIII sofreu bastante pressão do rei da França, Luis XV, para que a Companhia fosse suprimida. Como esse fato nos ajuda a compreender o processo de supressão e restauração da Companhia de Jesus?

Ilário Govoni – O papa Clemente XIII (Rezzonico) não pode ser confundido com o papa Clemente XIV (Ganganelli). Clemente XIII apoiou a Companhia de Jesus e com a Bula Apostolicum, três anos antes da Supressão, declarou como indispensável para a Igreja. Ou seja, confirmou a Companhia de Jesus com toda a sua ação, embora o mesmo papa Clemente XIII não aprovasse a inculturação dos jesuítas na questão dos Ritos Chineses. Já o papa Clemente XIV também sofreu muitas pressões e ameaças de separação dos reis do “Pacto de Família”, criando igrejas nacionais. Mas foram, sobretudo, as intrigas e as campanhas de desinformação que, para a paz da sociedade cristã, obrigaram o papa Clemente XIV a extinguir a ordem jesuítica, com a breve Dominus ac Redemptor.

“O debate político e intelectual se dava entre o poder absoluto dos reis e as propostas vindas da Inglaterra e da França, no sentido de separar os poderes do Estado e criar um parlamento efetivo”
IHU On-Line – Que avaliação o senhor faz da atuação da Companhia de Jesus no processo de “encontros culturais”, que marcaram o início da modernidade e sua presença na contemporaneidade?

Ilário Govoni – A atuação dos jesuítas no campo da cultura no período antecedente à Supressão se dava, sobretudo, na formação de opinião e das elites e na formação escolar. Em nível popular temos o engajamento com as línguas nativas e escolas profissionais. Lembramos, quanto ao Brasil, a rede de colégios desde Belém (PA) até Paranaguá (PR). Muitos conferiam graus acadêmicos em Artes, Letras, além de Direito, Filosofia e Teologia equivalentes aos de Coimbra. No Brasil e no mundo, estavam na vanguarda da elite cultural, não somente com as instituições de ensino superior, mas também com pesquisadores em astronomia, arquitetura, matemática, física, ciências naturais, farmacêutica. Ocorria um intercâmbio de experiências com outros cientistas do mundo inteiro. Um jesuíta do Grão Pará, padre João Daniel, expulso em 1757, escreveu, na prisão pombalina, Tesouro descoberto no Máximo Rio Amazonas, no qual, além de etnologia e antropologia, contém, no quarto tomo, a descrição de sua “14 invenção”: como aproveitar a energia das marés amazônicas, e fabricou um navio com “velas para navegar contra vento”. Experiências que fazia no Rio Moju (PA).

Depois da Restauração, os jesuítas apostaram muito no ensino e na pastoral direta no meio do povo. Com a “Nova Companhia”, além do investimento nos colégios, havia o investimento missionário. Em 1850, 50% dos jesuítas eram aplicados nas missões.

Nesse período de 41 anos em que os jesuítas ficaram “fora do mapa”, foram poucas as reflexões acerca do que se estava expondo na Declaração dos Direitos Humanos do Cidadão.
“Nós fomos inocentes? Não percebemos todas as consequências da ação missionária?”

IHU On-Line – Como os jesuítas viveram durante o período de Supressão?

Ilário Govoni – Durante a expulsão, alguns dos jesuítas que viviam no Brasil, cerca de 20% deles, foram presos em Lisboa e os outros perderam a cidadania. Mais tarde o papa aceitou alguns e outros acabaram migrando para a região do Mediterrâneo em busca de abrigo. Eles passaram a ser “desempregados” porque não podiam atuar nem nos ministérios, nem nos retiros, nem em confissões. Estavam excluídos da vida religiosa. Havia uma confusão enorme, um sentimento de desânimo e tristeza e a certeza de que ninguém os queria, embora alguns tivessem sido “aproveitados” em alguns Reinos. Como não eram mais reconhecidos como jesuítas, também não puderam mais utilizar as famosas bibliotecas jesuíticas espalhadas pelo mundo todo.

Os jesuítas que não foram extintos mudaram para a Rússia e a Prússia, onde os reis não assinaram, não deram o “placet”, a ordem de extinção da Companhia, enviada por Roma. Então, juridicamente, os jesuítas não estavam extintos nesses países. Esse caso permitiu a continuação da Companhia de Jesus nesse período de extinção, porque havia, na Rússia, mais de 150 jesuítas dos 26 mil, que havia antes da supressão, ou seja, restou apenas 0,5%.

Alguns jesuítas sobreviveram, e em 1814 o papa Pio VII restaurou a Companhia de Jesus. Depois de oficializado o restabelecimento da Companhia de Jesus, outros 500 padres se agregaram e, posteriormente, houve uma grande procura por jovens estudantes. Em duas décadas havia cinco mil jesuítas.

IHU On-Line – O padre Gabriel Malagrida foi condenado como herege em 1761, 12 anos antes da supressão da Companhia de Jesus. Em que medida ações como a dele contribuíram para a decisão de supressão da Companhia?

Ilário Govoni – A atuação do padre Gabriel Malagrida interferiu bastante, ao menos no mundo ibérico (Espanha e Portugal), onde ele era considerado um santo e acabou sendo desmoralizado como herege. A condenação não teve nada a ver com heresia, embora ele tivesse sido acusado e transferido do cárcere da Inconfidência ao da Inquisição acusado de falsa profecia. A convocação dele à Inquisição foi para mostrar como se podia ameaçar a Igreja e a população com um “santo de pau oco”.

“Ele (Ricci) era um homem de “cuore stretto” (coração apertado), ou seja, era pouco corajoso e não era um superior geral para tempos de tempestade”
Para ele, e para muito jesuítas, a expulsão (1759) de Portugal e das colônias era o fim do mundo. Aí Malagrida reagiu, começou a escrever contra a Relação Abreviada (um sumário de calúnias antijesuíticas). Ficou muito abalado e esperançoso do futuro. Ele não tinha escrito nada até então, a não ser Juízo da Verdadeira Causa do Terremoto que padeceu a corte de Lisboa no Primeiro de Novembro de 1755, único livretinho que escreveu e foi impresso. As obras que escreveu na prisão da Inconfidência, ao menos na mente dele, eram destinadas à publicação, porque escreve “para meus leitores”. Escreveu primeiro uns cadernos que levam o título Tratado da Venerável Vida de Sant’Ana e, em seguida, Tratado da Vida e Império do Anticristo.

Escreveu a Vida de Sant’Ana, em que visava completar o que os Evangelhos não contam. Deve ter escrito isso para a sua própria consolação espiritual, após ter visões e locuções de Nossa Senhora, em 1759.

Sua primeira prisão se deu em 11 de janeiro de 1759, pela Inconfidência, e é ali que escreve A Vida de Sant’Ana. É somente em 27 de setembro de 1759 que coloca a primeira data em Anticristo. Ele pretendia continuar a História do Futuro, de padre Antônio Vieira, ou seja, uma profecia. Por isso, enquanto ele estava escrevendo o Anticristo, foi surpreendido, na primeira semana de dezembro de 1760, pelo carcereiro, que lhe sequestrou os cadernos e repassou para Pombal, que o denunciou à Inquisição, pois se tratava de assunto religioso suspeito.

Por estes dois escritos, Malagrida foi condenado pela inquisição. Os textos ficaram inéditos até a tradução que fiz do latim e publiquei no ano passado. Ele contava o tempo de “desgraça” do Anticristo, que nasceria em 1999, na cidade de Milão (Itália). Não esconde a associação do Anticristo com a pessoa de Pombal. A obra não está completa; faltou a terceira parte, que tratava da vinda do Reino de Cristo. Para Malagrida, os tempos da “desgraça” atingiam também a Igreja, quer a dos tempos em que escrevia, quer a dos tempos atuais, pois o Anticristo reinará até 2054 (conforme a cronologia interna da obra), até destruir Roma e transformar a Basílica Vaticana num templo pagão, até que imploda e caia sobre si mesma.

IHU On-Line – Com esta obra ele também prevê a supressão da Companhia?

Ilário Govoni – Ele prevê a destruição da Companhia e, sobretudo, é interessante o Capítulo Quinto de o Anticristo, no qual ele, em conversa com o padre Antônio Vieira, analisa toda a atuação dos jesuítas como missionários e diz que foram inocentes manipulados, porque prepararam mão de obra barata – os índios que viviam nas reduções – para os colonos. E questiona: “Nós fomos inocentes? Não percebemos todas as consequências da ação missionária?” É muito crítico em relação à ação pastoral missionária dos jesuítas nesse período. Ele se antecipou em relação à Supressão dizendo: “Para todo o sofrimento que estamos passando, vamos receber um prêmio, reservado a nós, porque damos a vida e fomos expostos a todos os perigos. Pelo nosso trabalho vamos receber, quando iniciar o Novo Reino de Cristo: tribos, nações e povos como nunca imaginamos. No Brasil e no Maranhão reinará somente Cristo”. Não há heresia até aí! Nesse livro incompleto ele escreveu somente a trajetória do Anticristo.

IHU On-Line – O senhor traduziu e comentou o livro de padre Malagrida. “Os jesuítas foram expulsos porque eles atrapalhavam, na medida em que ofereciam um programa de autonomia dos índios nas aldeias”. Quais os principais apontamentos em relação à obra?

Ilário Govoni – Chama-me a atenção o fato de que tenha escrito em tão pouco tempo tais obras e os meios que podia utilizar no cárcere e a segurança com que afirma ouvir estas vozes que vinham do alto. Ele era um homem extraordinário. Dizem que ele tinha o dom da telepatia, lia o pensamento dos outros, previa acontecimentos, como o terremoto de Lisboa. Previa catástrofes, como a Supressão. Isso lhe dava uma popularidade e estima de santidade. O Tribunal da Inquisição fez um processo dentro do processo para saber se ele tinha capacidade mental, afinal, era “compos sui”?

Malagrida, a meu ver, era um homem debilitado pela idade e por todos os trabalhos esgotantes enfrentados, acrescido pelo cansaço físico decorrente de todas as penitências que fazia. No livro do Anticristo ele se dedica, em grande parte, a reformar a vida religiosa na Igreja. Dá exemplos e anedotas de escândalos que existiam na Igreja da época e a partir deles tenta interferir e levar à conversão e a penitências. Agora, nos momentos de lucidez, ele era profeta? Não se pode dizer isso porque a profecia dele dizia respeito a um futuro que ainda não aconteceu. As datas que ele sugere são apenas simbólicas, como o próprio Antônio Vieira escreve em sua História do Futuro. Onde estava a heresia?

IHU On-Line – Quais motivos levaram à Restauração da Companhia?

Ilário Govoni – Se por Restauração entendemos voltar a uma situação anterior danificada, percebemos que a expressão Restauração da Companhia de Jesus não é muito apropriada, inclusive, porque ela nunca foi extinta totalmente. Parece-me que influiu na mentalidade da época a expressão utilizada, após o declínio de Napoleão, para reprogramar a Europa com os princípios da Restauração e Legitimidade, tão próprios do Congresso de Viena (1815).

A Bula Regimini militantis Ecclesiae, com a qual Pio VII declarou a restauração da Companhia de Jesus, dizia que a Igreja precisava dos válidos remadores jesuítas na barca de São Pedro. Quer dizer, os jesuítas eram importantes para a Igreja. O papa Pio VII foi muito corajoso ao tomar essa decisão, porque Napoleão ainda não tinha caído em Waterloo (ele nunca simpatizou com os jesuítas) e ainda não se sabia em agosto de 1814 como é que ia ficar o mundo.

Na época da Supressão, um jesuíta chamado Júlio César Cordara, Secretário Geral da Companhia de Jesus em Roma, saíra da Companhia um ano antes da Supressão. Comentando com os ex-jesuítas o grande evento, ele deu uma interpretação do acontecimento, atribuindo à personalidade do último Geral da Companhia, Lorenzo Ricci, o desfecho do caso. Diz que não estava à altura da tempestade que acometia a Companhia. Mandava-nos rezar e confiar na Providência. Ele (Ricci) era um homem de “cuore stretto” (coração apertado), ou seja, era pouco corajoso e não era um superior geral para tempos de tempestade. Ele não lutou bastante naquela batalha de informações e contrainformações em que os jesuítas tinham homens e meios para contrapor a panfletos outros panfletos. Achava que não nos devíamos rebaixar para responder às calúnias dos iluministas, libertinos e soberanos.

IHU On-Line – Pode nos falar dos carismas da Companhia e como eles foram e ainda são importantes na missão dos jesuítas?

Ilário Govoni – São muitos os carismas da antiga Companhia, começando pela preparação intelectual e teologia aprimorada, espírito missionário, companheirismo, abertura a novos horizontes e, sobretudo, cristo-centrismo. A “ressuscitada” Companhia tem muito que aprender com o passado. O que havia de errado era talvez nos considerarmos melhores que os outros e acima de qualquer crítica e suspeita. No entanto parece-me que “amar e servir”, como dizia Inácio, seja o carisma atual. Ou ainda como dizia o jesuíta Dom Luciano Mendes de Almeida, perguntar humilde e sinceramente: “em que posso ajudar?”

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

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