Uma carta comovedora assinada ” + edson damian, pobre bispo do povo do mato”

Uma carta comovedora do bispo missionario na fronteira do Amazonas-Colombia

Resumo de uma carta do bispo Edson, da Amazonia, na fronteira com Colombia.

Querido Frei…. (destinatário da mensagem)

“Consegui retornar vivo da itinerância através dos rios Içana e Ayari, de 09 a 17 de novembro. Vivo e feliz porque tudo aconteceu como tinha sido programado pelo Frei Carlos. E com agradáveis surpresas. Da terra e do céu. Durante o dia fez bom tempo. E muita chuva durante a noite para encher os rios e possibilitar a visita às aldeias mais afastadas e transpor as cachoeiras mais perigosas como Uapuí e Ukuki.
Fui acompanhado e bem assessorado pelo Jorge, de SGC, e pelo Roberto de Assunção. Ambos práticos (barqueiros) de mão cheia. Não tenho tempo para fazer um relatório completo sobre a acolhida, as confissões (sigilo!), a beleza e a emoção das celebrações, várias delas ao som do japuritu (flautas de quase dois metros) e cariçu (flautas
pequenas com conjunto de bambus de diversos tamanhos, como a kena dos povos andinos).
Relato apenas algo do que aconteceu em Tapira Ponta. Em maio do ano passado, na visita a esta comunidade, ouvi um testemunho comovente do Cesário, com mais de 70 anos, tuchaua da aldeia. Contou-me que um pastor evangélico, bem conhecido de todos nós, fez-lhe uma visita com um barco grande. Levou dentista, médico e distribuiu muitos ranchos. No fim ofereceu-lhe R$ 5.000,00 para que ele e sua aldeia se tornassem evangélicos. Certamente ele nunca tinha visto tanta grana diante de seus olhos. E para quem vive tão longe e tão pobre, a tentação deve ter sido  grande. Mas ele respondeu: “Pastor, pode ficar com seu dinheiro. Fui batizado na Igreja católica e nela quero viver até morrer”. Com lágrimas nos olhos, disse-lhe: “Cesário, obrigado pelo seu testemunho
de fé. O senhor já foi crismado?”. Ainda não, me respondeu. “Pois bem, na próxima visita que lhe fizer, você e todos os membros da comunidade que ainda não foram crismados, receberão este sacramento, pois o senhor soube “confirmar” a sua fé diante de quem o tentou. E o que aconteceu? O Cesário não esqueceu. Ele e mais 19 pessoas  de Tapira Ponta e das aldeias vizinhas de S. Marta e S. Rosa receberam o sacramento da Confirmação.
Bastaria este milagre para  compensar todo o cansaço da viagem e das horas intermináveis de confissões em Baniwa, Coripaco e Nheengatu. Para concluir, uma das celebrações mais lindas aconteceu em Ukuki Cachoeira, a última e mais afastada. Realizou-se dentro da grande maloca, recém inaugurada. Os crismandos vestiam trajes tradicionais: saias de tucum, dorso nú e pintado, colares e cocares. Até o bispo recebeu um cocar e pitura no rosto para que a Crisma fosse inculturada. Todos entramos em procissão ao som do japurutu e cariçu. A celebração durou duas horas e nem as crianças arredaram o pé. Após a celebração, o famoso dabucuri. Dez pares dançando e a pessoas entregando presentes no meio da maloca: cestos, vasos, peneiras, colares… Carreguei dois sacos de
presentes! A cestaria de arumã da arte Baniwa é a mais bela do Rio Negro. Já está espalhada pela Europa e USA. Recentemente o Frei Carlos levou uma mala cheia para a Itália.

Abraço fraterno com votos de Paz e Bem.

+ edson damian –

pobre bispo do povo do mato

http://www.intereclesialcebs.org/full.php?id_noticia=249&noticia_cat=3