CARTA DO 15° ENCONTRO NACIONAL DE PRESBÍTEROS

“Não deixeis que vos roubem a esperança” (EG 86)

 Como filhos de Deus e irmãos em Cristo, nós, 531 presbíteros, 10 Bispos e demais convidados, representando 224 de nossas 274 igrejas particulares, que formam a Igreja no Brasil, reunimo-nos, na Casa da Mãe Aparecida, entre os dias 05 a 11 de fevereiro de 2014, para rezar, conviver e refletir sobre nossa vida e missão como Presbíteros nos dias de hoje.

Aos irmãos presbíteros e aos seus presbitérios desse imenso Brasil

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1.    Testemunhas de fé, esperança e caridade

 Como filhos de Deus e irmãos em Cristo, nós, 531 presbíteros, 10 Bispos e demais convidados, representando 224 de nossas 274 igrejas particulares, que formam a Igreja no Brasil, reunimo-nos, na Casa da Mãe Aparecida, entre os dias 05 a 11 de fevereiro de 2014, para rezar, conviver e refletir sobre nossa vida e missão como Presbíteros nos dias de hoje.

Nosso encontro teve como tema: “Concílio Vaticano II e os Presbíteros no Brasil: Testemunhas de Fé, Esperança e Caridade” e o lema: “Estai sempre prontos a dar a razão da esperança a quem pedir” (1Pd 3,15). A grande moldura deste encontro, a celebração dos 50 anos do Concilio Vaticano II, nos colocou em comunhão com a totalidade do povo de Deus e nos levou a renovar nossa esperança na edificação de uma Igreja verdadeiramente ministerial e missionária.

E neste 15º ENP evocamos alguns Presbíteros como exemplos de testemunhas que nos inspiram na caminhada: Padre Gabriel Malagrida, Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, Padre Diogo Antônio Feijó, Padre Jose Antônio Pereira Ibiapina, Padre Cicero Romão Batista, Padre Júlio Maria, Padre João Bosco Penido Burnier, Padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, Padre Ezequiel Ramin, Padre Josimo Morais Tavares, Padre Alberto Antoniazzi, Padre João Batista Libânio e outros que atualmente estão no pleno exercício de seu ministério junto ao Povo de Deus.

2.    Esperança frente à realidade desafiadora

Presbíteros

 No primeiro dia do encontro tivemos a análise da conjuntura sócio-política-econômica e eclesial. Ajudados pelo Dr. Pedro Gontijo, secretário executivo da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, mergulhamos na realidade mundial, latino-americana e brasileira.

Comunicou-nos que recente relatório da ONG britânica Oxfam mostra que o patrimônio das 85 pessoas mais ricas do mundo equivale às posses de metade da população mundial. Os poderes econômicos e políticos estão produzindo um “apartheid” mundial, o que torna previsível que as tensões sociais e o aumento do risco de ruptura social sejam inevitáveis.

Percebemos que, na América Latina, o modelo neo-desenvolvimentista adotado por vários países, dentre eles o Brasil, torna praticamente inviável a vida de comunidades tradicionais, como a dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores e outras.

Constatamos, também, a falência do sistema penitenciário, que ainda não despertou significativamente a solidariedade da sociedade civil. Precisamos, sem dúvida, criar uma cultura de rejeição ao “câncer social” que é a corrupção (EG 60). Como alertou o Papa Francisco, não podemos ficar reféns da globalização da indiferença.

A inclusão de inúmeros pobres na sociedade de consumo não é suficiente para dizermos que houve realmente uma ascensão social significativa no país. Essa só será real quando esses pobres estiverem incluídos num sistema digno de saúde, de educação, de saneamento básico, de lazer, de segurança, de mobilidade urbana. A exemplo de Jesus, o Bom Pastor, sofremos ao perceber que o povo, sobretudo os pobres, continua como ovelhas sem pastor.

 Frente às novas manifestações que tomam as ruas do nosso país, desde junho de 2013, cabe a nós, Presbíteros, uma pergunta fundamental: o que elas têm a ver com o exercício de nosso ministério? Podemos alimentar a esperança de que o povo na rua tem verdadeiramente um poder constituinte?

 A análise de conjuntura eclesial esteve sob a assessoria do Pe. Thierry Linard de Guertechin, SJ, do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento (IBRADES).

Constatamos com alegria, nas últimas décadas, o crescimento numérico dos Presbíteros (22.119), das Paróquias (10.720) e das Dioceses (274). Nossa Igreja está viva e dinâmica, com muitas iniciativas evangelizadoras em todas as regiões de nosso imenso país.Por outro lado, percebemos que muitos católicos vêm abandonando nossas comunidades, buscando, muitas vezes, soluções mágicas e imediatas para os seus problemas.

Isto nos desafia, como Presbíteros, a buscar novas formas de presença e de comunicação, de linguagem, de símbolos que facilitem nosso contato com o povo, não cedendo às soluções fáceis, mas acreditando que devemos intensificar nossa proximidade, inserindo-nos na vida de nosso povo, abraçando, assim, sua causa como pastores.

Lamentamos a veiculação de comportamentos, por parte de alguns setores da Mídia que vêm banalizando valores humanos e cristãos, fundamentais para a sadia convivência social e, sobretudo, os sacramentos da Igreja Católica, com caricaturas de extremo mau gosto de nossas celebrações.

Frente a todos esses desafios, emergem com força as palavras de Dom Hélder Câmara: “não deixem cair a profecia”. Será que podemos, diante de tantas cruzes e sofrimentos de nosso povo, pretender ser testemunhas da fé e da caridade, não permitindo jamais que nos roubem a esperança?

 3. Esperança na retomada da recepção do Concílio Vaticano II na vida e no exercício do ministério presbiteral

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Motivados pelos 50 anos da realização do Concílio Vaticano II, desde a preparação para este nosso 15º ENP, estamos refletindo como ser verdadeiramente Presbítero, à luz do espírito e textos conciliares, sob a assessoria de nossos irmãos da Arquidiocese de São Paulo, padres Ney de Souza e Edson Donizete Toneti.

Constatamos que há inúmeras formas de exercer o ministério presbiteral, de sermos sacerdotes, pastores e profetas, numa Igreja-Povo de Deus, em comunhão com nossos Pastores e com todos os batizados, fazendo emergir o rosto de uma Igreja toda ministerial, que favorece também a atuação efetiva de nossos irmãos leigos e leigas.

Essa eclesiologia de comunhão e participação que vem a nós pela Constituição Dogmática Lumen Gentium nos mergulha no mistério da Trindade, nos insere na vida de nossas Igrejas Particulares (LG 22) e nos faz Padres para a universalidade da Igreja, tanto na vivência dos sacramentos como das virtudes (LG 11).

Por isso, precisamos ser Presbíteros de uma Igreja em saída, no espírito do Decreto Ad Gentes, que nos lança à maravilhosa e desafiadora aventura da missão inculturada, discernindo as sementes do Verbo espalhadas em todos os povos, em todas as nações (AG11;26).

A missão é intrínseca à Igreja, pois sua natureza é missionária e isso nos desafia a sermos discípulos do único Mestre e missionários do Reino. Nossa caminhada ministerial precisa ter, com transparência, a centralidade da Palavra de Deus, como nos indica a Dei Verbum, numa busca sincera de equilíbrio entre o Pão da Vida da Palavra e o Pão da Vida da Eucaristia (DV 21). Palavra de Deus que nos aproxima do coração do povo que tanto a ama e que dela tem sede. Ser Presbíteros de vida e coração orantes e celebrativos, à luz da Sacrosanctum Concilium, nos faz considerar seriamente a Eucaristia como fonte e cume de toda a Igreja (SC 10).

Como sermos também abertos à presença das sementes do Verbo em outras Igrejas cristãs e de Deus Pai em outras religiões, numa perspectiva ecumênica e do diálogo inter-religioso, de acordo com Unitatis Redintegratio e Nostra  Aetate? E homens da defesa incondicional da liberdade religiosa e de todos os direitos humanos à luz da DignitatisHumanae?

E, sendo Presbíteros conciliares, seremos profetas e testemunhas de que outro mundo é possível, fazendo das alegrias e tristezas, angústias e esperanças de todos, sobretudo dos pobres, nossas alegrias e tristezas, nossas angústias e esperanças, iluminados pela Constituição Pastoral Gaudium et Spes(GS 1).

É nessa perspectiva de conformação de nosso ministério com as grandes inspirações conciliares que queremos formar os novos Presbíteros como verdadeiros pastores, como nos indica Optatam Totius, quando afirma que a pastoral deve ser o eixo de toda a formação presbiteral (OT 4).

Tudo isso nos propicia a chance de sermos Presbíteros identificados com a eclesiologia conciliar, padres do DecretoPresbyterorum Ordinis, profundamente inseridos nos nossos presbitérios e com a vida centrada na caridade pastoral (PO 8,14-16). Vivendo assim, em presbitério nas nossas Igrejas Particulares, enfrentando nossas ambiguidades e contradições, e colhendo os frutos de tanto trabalho abnegado, ninguém nos roubará a esperança.

 4. Esperança fundada em Jesus e nas palavras e atitudes do Papa Francisco

Vivenciamos de maneira forte e profética o nosso dia de retiro, sob a orientação de Dom Angélico Sândalo Bernardino, que nos instigou a fugir da tentação de sermos presbíteros mais ou menos. Ele fez, ainda uma vez, emergir com força a consciência de que o fundamento maior de nossa esperança advém da certeza de que Jesus caminha conosco, pois segui-Lo deve ser a fonte e o paradigma máximos da nossa caminhada de ministros ordenados.

Francisco, pecador

Por isso, não basta estarmos na Igreja, precisamos estar em Cristo. Como presbíteros, precisamos ser homens do sacrifício eucarístico, da partilha e de profunda intimidade com Deus e união com seu povo. Partindo da consideração sobre o “presbitério” de Jesus, afirmou que, como bispo, ele teria mandado embora no mínimo uns seis, mas que Nosso Senhor assim não o fez; pelo contrário, mesmo com tantos homens frágeis, continuou sua missão e ainda confiou-lhes a continuidade dela.

Lembrou-nos, ainda, de que em nossas inúmeras reuniões, seja de presbíteros, seja dos bispos, não são tratados com transparência os verdadeiros problemas que afetam nossa vida e ministério. Sem ser ingênuo e com intrepidez nos cumulou de esperança de que é possível viver em comunhão presbiteral, ainda que não nos amemos o bastante. Somos, por tudo isso, cotidianamente impelidos pelas palavras e gestos do Carpinteiro de Nazaré, que ousou fazer ouvir a voz da periferia na capital de seu país, frente aos poderes políticos, econômicos e religiosos de sua época.

Hoje, somos também instigados pelas palavras e atitudes do Papa Francisco que tem chamado a atenção de todos pela sua forma normal de ser pastor e profeta no meio do povo, inspirando-nos nas nossas condutas e no exercício de nosso ministério presbiteral, como discípulos missionários do Reino do Pai.

Sobretudo, ressoam em nossos ouvidos suas palavras desafiadoras, abrindo a Igreja para enfrentar os grandes conflitos do mundo, quando diz: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa no emaranhado de obsessões e procedimentos” (EG 49).

Com Jesus e com as nuvens de testemunhas que temos, podemos afirmar que ninguém nos roubará a esperança (Hb 12,1). “E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”(Rm5,5).

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5.    Esperança pela companhia constante de Maria

 Desta Casa de Maria, que resplandece como modelo de virtudes (LG 65) e é aqui chamada Mãe Aparecida, terra tão amada do nosso povo romeiro, voltamos às nossas Igrejas Particulares, aos nossos presbitérios, às nossas comunidades eclesiais, certos da sua bênção maternal para nossa vida e ministério presbiteral, onde nos comprometemos a ser testemunhas das virtudes teologais e dar razão da esperança a quem a pedir.

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