Apoio e liberdade na construção dos caminhos.

Entrevista especial com Faustino Teixeira sobre a obra de Padre Libânio
 “Nós, seus eternos discípulos, sentiremos falta de seu sorriso aberto, de sua santidade contagiante e sua presença amiga (…) Temos agora a responsabilidade de dar continuidade ao seu sonho, animados pela mesma alegria e entusiasmo”, afirma o teólogo.
Foto: jesuitasbrasil.com

Libânio teve uma importância fundamental ao firmar os valores e exigências de uma vida religiosa inserida no tempo, aberta aos desafios, acesa para os dons do Espírito. Com sua autoridade indiscutível, ajudava as pessoas, mesmo aquelas ainda inseguras, a firmar tais valores na sua caminhada e defendê-los com convicção. O seu lindo trabalho em favor de uma vocação lúcida e aberta. Isso fará falta.

A vibração e entusiasmo com que irradiava para as pessoas caminhos de fé alternativos era única.

Encantava-nos também sua disponibilidade para acolher a todos. Sua porta estava sempre aberta… Isso também fará falta. Nós, seus eternos discípulos, sentiremos falta de seu sorriso aberto, de sua santidade contagiante e sua presença amiga. Mas sabemos que foi acolhido no carinho maior do Pai, no Mistério de seu encanto. Temos agora a responsabilidade de dar continuidade ao seu sonho, animados pela mesma alegria e entusiasmo”, declara o professor e teólogo Faustino Teixeira.

O padre jesuíta João Batista Libânio teve sua passagem na manhã de quinta-feira, 30-01-2014, aos 81 anos, vítima de um infarto. Considerado um dos grandes autores na Teologia da Libertação e com atuação destacada junto às comunidades eclesiais de base, Libânio era graduado em Filosofia e em Letras Neolatinas, mestre e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e estudou Teologia Sistemática na Hochschule Sankt Georgen, em FrankfurtAlemanha. Foi professor de Teologia no Colégio Cristo Rei e na Unisinos, em São Leopoldo – RS, além de ter lecionado no Instituto Teológico da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Atualmente, era professor na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, emBelo Horizonte – MG, e vigário na paróquia Nossa Senhora de Lourdes, no município de Vespasiano – MG.

“Um dos aspectos mais bonitos de seu legado é a intransigente defesa da liberdade. Esse foi um traço que marcou minha experiência com ele. O seu profundo respeito aos nossos caminhos pessoais. Sublinho também o seu senso de justiça e sua firmeza ética. Seu testemunho nesse campo ficou marcado. Chamo ainda a atenção para a sua vida espiritual. Sua presença foi fantástica: abria caminhos e horizontes de uma espiritualidade vital, inserida no tempo, mas sempre aberta aos dons da gratuidade. Suas celebrações… inesquecíveis. Como dizia com os olhos marejados: momentos de eternidade. Ali emergia o Libânio, com todos os seus ‘deuses’, ‘forças’, ‘energias’. Só quem participou com ele desses momentos preciosos consegue avaliar a força dinamogênica de suas celebrações”, revela Faustino.

Faustino Teixeira é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF, pesquisador do CNPq e consultor do ISER-Assessoria. É pós-doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Entre suas publicações, encontram-se Teologia e Pluralismo Religioso (São Bernardo do Campo: Nhanduti Editora, 2012)Catolicismo plural: dinâmicas contemporâneas (Petrópolis: Vozes, 2009);Ecumenismo e diálogo inter-religioso (Aparecida do Norte: Santuário, 2008)Nas teias da delicadeza: itinerários místicos (São Paulo: Paulinas, 2006); e No limiar do mistério. Mística e religião (São Paulo: Paulinas, 2004).

Faustino Teixeira – Foto: Gazeta do Povo

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a contribuição de J.B. Libânio no contexto teológico brasileiro?

Faustino Teixeira – Uma presença inegável, em vários âmbitos. Com ele a teologia da libertação ganhou foros de cidadania. Por meio de seus cursos e inúmeras assessorias, possibilitou que essa nova forma de fazer teologia fosse ganhando espaço nos corações e mentes. Chamo particular atenção para o seu trabalho junto aos religiosos, no âmbito da formação da consciência crítica. Aqueles seus três livros sobre esse tema circularam por todo o Brasil.

Menciono também o seu trabalho com as comunidades eclesiais de base – CEBs e a riqueza das reflexões que fez na avaliação dos intereclesiais de CEBs. São textos inauguradores. Em momentos difíceis da conjuntura eclesiástica, soube manter uma presença altiva e crítica, como no livro A volta à grande disciplina (Edições Loyola, São Paulo, 1983). Um livro que fez imenso bem.

Também no campo da metodologia teológica, uma contribuição inestimável. Talvez tenha produzido um dos melhores livros nessa área: Introdução à vida intelectual (Edições Loyola, São Paulo, 2001). Mas diria que o seu legado mais lindo foi o testemunho límpido de uma vida de serviço ao projeto de Jesus, ao reino de Deus.

IHU On-Line – J. B. Libânio foi um educador, e dizia que nada faz o ser humano ser tão feliz como colaborar no crescimento interior e espiritual das pessoas. Qual a importância deste tipo de crescimento para os jovens?

Faustino Teixeira – Um marco da caminhada de Libânio foi sua presença entre os jovens. Tive a grande alegria, e tantos outros companheiros queridos, de fazer essa travessia de Libânio no acompanhamento da juventude. Em tempos difíceis da conjuntura política, nos anos 1970, Libânio esteve presente com os jovens, acompanhando seus encontros e iluminando consciências e corações.

Falo aqui em particular da Tropa Maldita, um grupo que nasceu com Libânio naqueles anos difíceis e que irradiou pelo Brasil vocações bonitas nas diversas áreas. O livro O mundo dos jovens (Edições Loyola, São Paulo, 1978) expressa esse momento de forma muito lúcida. Sinalizo aqui o seu apoio imprescindível na formação crítica e espiritual dos jovens. E também, um traço tão bonito, o seu respeito à liberdade de cada um, na construção dos caminhos espirituais. Sua dedicação ao crescimento espiritual é um de seus legados mais bonitos que guardarei no coração.

 

“Em tempos difíceis da conjuntura política, nos anos 1970, Libânio esteve presente com os jovens, acompanhando seus encontros e iluminando consciências e corações”

IHU On-Line – O padre Libânio foi um dos grandes incentivadores de sua vida teológica. Como era sua relação com ele? 

Faustino Teixeira – Uma relação linda, diria. Desde a gestação de minha vida acadêmica e teológica ele esteve presente, incentivando, apoiando e mesmo financiando. Com ele nasceu o estímulo para fazer o mestrado em teologia na PUC-RJ; com ele, os primeiros fermentos para a continuidade de meus estudos doutorais em Roma. Foi um orientador exemplar no mestrado, e guardo ainda com carinho todas aquelas notas metodológicas que ele foi me passando ao longo da trajetória. Mas mesmo antes, nos caminhos de juventude, ele esteve junto, com sua alegria imarcescível. Minha formação juvenil teve a sua marca impressa, e também minha formação espiritual. Ajudou ainda a quebrar, com o seu jeito particular, toda a resistência que eu tinha para escrever. Se hoje vivo com alegria esse ofício, devo também a ele.

IHU On-Line – O que foi a Tropa Maldita? Quais são os frutos resultantes deste grupo de discussões?

Faustino Teixeira – Foram mais de três décadas reunindo-se três ou quatro vezes por ano com jovens universitários de várias partes do Brasil. O momento não era muito propício para esse tipo de reunião, e em alguns encontros sofremos ameaças bem concretas. Muitos casamentos e vocações nasceram desses encontros, e também a afirmação de valores fundamentais que continuam animando os pais, filhos e netos dessa experiência que se iniciou nos anos 1970. Libânio estava sempre lá, nos acompanhando, nos formando e firmando nossa vida espiritual. Estamos todos meio “órfãos” neste momento, mas também muito felizes por ter encontrado esse santo em nossas vidas. Estamos com um encontro da Tropa marcado para março de 2014. Libânio era um dos mais animados.

 

“Diria que o seu legado mais lindo foi o testemunho límpido de uma vida de serviço ao projeto de Jesus, ao reino de Deus”

IHU On-Line – Como a teologia da libertação interferiu com o fazer teológico de Libânio? 

Faustino Teixeira – Libânio já vinha, de certa forma, preparado para receber esse desafio da teologia da libertação. Sua formação teológica veio com as marcas de abertura do Vaticano II. Estava em Roma na época do Concílio, e todos aqueles temas candentes do tempo faziam parte de seu repertório. Ao chegar no Brasil encontra o solo fértil para um avançar teológico ainda mais arrojado. Com estímulo de amigos, foi assumindo este novo desafio e se firmou como um dos grandes nomes dessa teologia entre nós. Expressão bonita disso é o seu livroTeologia da Libertação: roteiro didático para um estudo (Edições Loyola, São Paulo, 1987), no qual sistematiza toda a sua reflexão sobre o tema. Esse livro também circulou por toda parte, nos cursos e assessorias dadas por Libânio. Mesmo naquele período mais duro da conjuntura eclesiástica, dos ataques rotineiros à teologia da libertação, Libânio foi uma voz alternativa. Assumiu essa teologia como uma filha querida e nos ajudou a manter a consciência acesa para a sua importância essencial. E, junto com essa teologia, o desafio de assumir sua expressão terrenal mais viva: as comunidades eclesiais de base.

IHU On-Line – Em um texto publicado em seu sítio, Libânio, que permaneceu mais de dez anos na Europa, destaca que fazer teologia no Brasil é diferente de fazê-la no velho continente. Quais seriam as diferenças mais significativas?

Faustino Teixeira – Diria que a grande diferença do fazer teológico no Brasil com respeito ao velho mundo é a presença da vida, da carne, do terrenal. A experiência teológica na América Latina é fundada numa experiência prática. Não parte só de abstrações, mas busca responder a um desafio muito preciso: de sede de vida e libertação que anima tantas comunidades populares. Este foi um dos mais ricos legados da teologia da libertação, reconhecidos por importantes teólogos do velho mundo como Karl RahnerSchillebeeckx e Metz. Num lindo texto do teólogo italiano Ernesto Balducci, ele sublinha que, com a teologia da libertação, as caravelas retornam ao velho mundo com os “novos anunciadores do Evangelho”. E retornam não com pensamentos desligados da vida, mas formulações conceituais animadas por uma “experiência multiforme, cujo sujeito é um movimento imenso que vem alimentado por uma galáxia de comunidades que reúnem para elaborar os gestos privados e públicos da esperança”.

IHU On-Line – Nestes 81 anos de vida, que legado Padre Libânio nos deixa?

Faustino Teixeira – Um dos aspectos mais bonitos de seu legado é a intransigente defesa da liberdade. Esse foi um traço que marcou minha experiência com ele. O seu profundo respeito aos nossos caminhos pessoais. Sublinho também o seu senso de justiça e sua firmeza ética. Seu testemunho nesse campo ficou marcado. Chamo ainda a atenção para a sua vida espiritual. Sua presença foi fantástica: abria caminhos e horizontes de uma espiritualidade vital, inserida no tempo, mas sempre aberta aos dons da gratuidade. Suas celebrações… inesquecíveis. Como dizia com os olhos marejados: momentos de eternidade. Ali emergia o Libânio, com todos os seus “deuses”, “forças”, “energias”. Só quem participou com ele desses momentos preciosos consegue avaliar a força dinamogênica de suas celebrações. Sobretudo aquelas que aconteciam nos momentos mais íntimos.

 

“Com ele a teologia da libertação ganhou foros de cidadania (…), possibilitou que essa nova forma de fazer teologia fosse ganhando espaço nos corações e mentes”

IHU On-Line – E o que mais fará falta depois de sua passagem? 

Faustino Teixeira – A meu ver, Libânio teve uma importância fundamental ao firmar os valores e exigências de uma vida religiosa inserida no tempo, aberta aos desafios, acesa para os dons do Espírito. Com sua autoridade indiscutível, ajudava as pessoas, mesmo aquelas ainda inseguras, a firmar tais valores na sua caminhada e defendê-los com convicção. O seu lindo trabalho em favor de uma vocação lúcida e aberta. Isso fará falta. A vibração e entusiasmo com que irradiava para as pessoas caminhos de fé alternativos era única. Encantava-nos também sua disponibilidade para acolher a todos. Sua porta estava sempre aberta… Isso também fará falta. Nós, seus eternos discípulos, sentiremos falta de seu sorriso aberto, de sua santidade contagiante e sua presença amiga. Mas sabemos que foi acolhido no carinho maior do Pai, no Mistério de seu encanto. Temos agora a responsabilidade de dar continuidade ao seu sonho, animados pela mesma alegria e entusiasmo.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo mais?

Faustino Teixeira – Sim, o que escrevi ontem no Facebook, tomado pela emoção de sua partida:

Um dia denso, esse 30 de janeiro de 2014. Relia esses dias o grande Rilke, talvez pressentindo os toques do invisível. Nós diante dessa temporalidade que nos ajuda a entender que a vida é feita de chegadas e de partidas. Estamos mais acostumados às chegadas, mas diante das partidas manifesta-se toda nossa fragilidade. Mas a vida é assim: há os lindos momentos festivos, de êxtase e de vitalidade que encantam e de comunhão que irradia; mas há também a dura constatação de que aquilo que é nosso “flutua e desaparece”. Não há como escapar dessa “fluidez”diante da qual todos prestaremos contas. Apesar de toda dificuldade, creio que temos que aprender também a nos alegrar com as partidas, sobretudo com aquelas que traduzem uma vida de honestidade, de santidade, de beleza e transparência. É assim que vejo esse amigo querido, esse orientador singular, esse santo na exemplaridade: João Batista Libânio. Quero deixar sua presença bem viva junto a mim, sua alegria solar e sua fé contagiante. Esses valores ficam, e vencem a frágil fluidez. Rûmî, dentre meus místicos mais queridos, foi alguém que conseguiu lidar com a morte de forma mais doce e mais serena. E ele me vem agora à lembrança:

“Finalmente partiste para o invisível.
Estranho rumo seguiste para deixar este mundo.
A força de tuas asas rompeu a gaiola,
ganhastes os ares e voastes para o mundo da alma.

Eras o falcão favorito do rei
nas mãos de alguma anciã,
mas ao ouvir o tambor
escapaste para o não-lugar.
Era um rouxinol entre corujas
mas a fragrância das rosas te envolveu
e correste para o jardim (…)

Silêncio.
Liberta-te da dor da fala.
Não durmas, agora que encontraste abrigo
Junto ao amigo querido.”

(Por Andriolli Costa e Luciano Gallas)

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