Comprando e vendendo pessoas

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por Michelle Hough, assessora de Comunicação da Caritas Internationalis

Eu estou em Madri vestindo uma calça jeans que custou 16 euros. Ótima compra! Eu pensei quando eu fiz a compra na semana passada. Agora eu estou em uma reunião em que se discute o trabalho forçado e o tráfico de pessoas. E eu já não tenho tanta certeza. Quem teria feito esse jeans?

Especialistas de organizações eclesiásticas de todo o mundo participam na capital espanhola, de 20 a 22 de janeiro, da reunião bienal de afiliados a Coatnet (Christian Organizations Against Trafficking in Human Beings), Rede de Organizações Cristãs contra o Tráfico de Seres Humanos.

Coatnet é uma organização antitráfico humano que reúne 37 organizações religiosas. Muitas delas também compõem a Rede Cáritas, sendo que a Caritas Internationalis atua como secretariado para a Coatnet. O evento foi patrocinado pela Caritas Internationalis e Cáritas Espanha que querem reforçar uma rede planetária capaz de agir com mais sintonia no combate ao tráfico humano.

A Organização Internacional do Trabalho diz que quase 21 milhões de pessoas são vítimas do tráfico humano. A grande maioria são mulheres asiáticas.

“A exploração do trabalho substituiu a escravidão de outras épocas”, disse a ouvidora da Espanha, Soledad Becerril Bustamente, na abertura do encontro.

Isso não é um simples caso de pessoas que estão sendo forçadas a trabalhar contra as suas vontades.  Conversando com participantes de várias partes do mundo, eu descobri que as pessoas que são traficadas realmente acreditam que vão melhorar suas vidas e de suas famílias.

Fr. George Sigamoney, diretor da Cáritas Sri Lanka, disse que os traficantes são muito ardilosos. “Eles identificam um agente local para falar com as mulheres da aldeia.” E continua: “eles dão montantes fixos para os pais ou maridos dessas mulheres e prometem mais dinheiro e um futuro melhor. Eles fazem as pessoas acreditarem que eles são turistas e levam as vítimas para Tailândia ou Singapura. De lá, elas são levadas para Arábia Saudita, Jordânia e Líbano.”

Felix Kangama, da Cáritas Mali, disse que os traficantes chegam à aldeia, pegam as garotas e fazem promessas. Elas terminam presas em lugares como o Líbano e a Arábia Saudita. Lá as vítimas têm seus passaportes roubados pelos traficantes.

Uma das medidas para combater o tráfico é pedindo que os governos implantem leis simples de conscientização.

Fr. Hagos Hayish, da Cáritas Etiópia, disse que eles têm um projeto que garante o registro imediato dos recém-nascidos. Segundo ele, isso evita que os pais mudem a idade de seus filhos e os enviem para trabalhar no exterior ainda jovem.

A triste verdade é que enquanto houver demanda, haverá oferta. Quer seja para os trabalhadores domésticos, operários, profissionais do sexo ou da construção civil. No tráfico, as pessoas se tornam mercadorias no mercado internacional.

Giuseppe Gulia, da Associação de Trabalhadores Italianos Cristãos (ACLI), disse que “as vítimas do tráfico já são vítimas antes mesmo de serem traficadas. Eles são mercadorias. É fundamental que eles tenham mais acesso a ajuda e serviços. Um serviço é a justiça.”

Em dezembro passado, Papa Francisco afirmou que “o tráfico de seres humanos é um crime contra a humanidade. Devemos unir forças para libertar as vítimas e para acabar com esse crime cada vez mais agressivo, que ameaça não somente pessoas individuais, mas também valores fundamentais da sociedade, bem como a segurança e justiça internacional, a economia, a estrutura da vida familiar e social.”

O Santo Padre também disse para “jogar fora” uma cultura que envolve coisas como o tráfico.

Eu tinha em minha mente as calças jeans que comprei por 16 euros enquanto tomava café da manhã com uma colega. Eu estava sentada em frente à Elena Timofticiuc, da AIDRom, Associação Ecumênica de Igrejas na Romênia.

Ela me contou sobre um dos casos em que ela trabalhou na Romênia. Eles receberam um relatório de 100 chinesas que estavam trabalhando em uma fábrica de roupas muitas horas por dias e em condições horríveis. Elas assinaram contrato com uma empresa da China com a promessa de um trabalho bem remunerado na Europa. Mesmo com a AIDRom tentando ajudá-las, elas estavam com medo de falar e de serem enviadas de volta para a China. Elena disse que trabalhar tão duro por pouquíssimo dinheiro tinha, mais ou menos, se tornado “normalidade” para elas.

Da Cáritas Suécia, George Joseph, disse: “as pessoas podem pensar que é melhor evitar a compra de itens feitos em lugares como Bangladesh ou China, onde há relatos de exploração e comprar coisas feitas na Europa, mas o que essas pessoas não entendem é que na Europa os trabalhadores são os mesmos.”

Elena acrescentou: “por um lado há demanda de trabalho, por outro há a oferta de força de trabalho, e no meio, estão as agências. É uma cadeia.”

Tráfico e trabalho forçado são de naturezas clandestinas e fáceis de ignorar. Mas isso se trata de um mercado global onde as pessoas são vendidas e compradas. É fácil esquecer que a globalização significa que estamos todos envolvidos nisso.

Meu jeans foi feito no Paquistão. Um recente relatório disse que o Paquistão ocupa o terceiro lugar no índice de escravidão global. Eu não posso dizer se a minha calça foi feita a partir do trabalho forçado. Mas considerando o quão pouco ela custou, alguém, em algum lugar, está pagando um preço muito alto.

Maria Cristina dos Anjos, diretora executiva nacional da Cáritas Brasileira, participou do evento junto com Rosely Cândido, coordenadora da Pastoral da Mulher Marginalizada.

Texto traduzido e adaptado por Thays Puzzi, assessora de Comunicação da Cáritas Brasileira | Secretariado Nacional

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