Libertar

Dom José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG)

Há grupos e pessoas que pedem a Deus  cura e libertação. Este verbo libertar é pleno de significados diferentes. Há, porém, algo fundamental comum, ou seja, sair de uma prisão, seja física, psíquica, moral ou espiritual.  O próprio Jesus veio para nos libertar do pecado e da morte para a felicidade plena.

Mas a libertação, seja qual for, só se dá quando se tem real possibilidade de sair da prisão, com suas realidades diversificadas. Aliás, as prisões em que ficam confinadas as pessoas que cometeram delitos, infringindo a lei civil, são verdadeira denúncia de que o mal causado não é modificado com o revanchismo da pena na situação das prisões brasileiras. Até se gastaria menos dinheiro se houvesse real punição corretiva e eficaz com penalizações educativas.

O profeta Isaías toca no cerne da libertação no sentido mais amplo para a humanidade, que resolveria toda a injustiça humana em relação à própria humanidade, inclusive com justiça social, através da justiça que Deus,  libertador, deverá trazer à terra: “Eu, Javé, chamei você para a justiça… e o coloquei como aliança de um povo e luz para a nações… para tirar os presos da cadeia e do cárcere os que vivem no escuro… Recuarão cobertos de vergonha aqueles que confiam nos ídolos!” (Isaías 42,6.7.17).  Desde que o homem resolveu colocar a si ou os ídolos no lugar de Deus, encaminha-se para sua ruína. Estraga a natureza, exclui  grandes parcelas de uma vida digna, acumula riquezas e o  fruto do desenvolvimento para benefício de minorias. Usa, muitas vezes,  a política para desmandos e desserviço à sociedade. Endeusa os prazeres, prestígio  e coisas materiais, desrespeita a ética, a família e os mais frágeis…

O Filho de Deus veio trazer a libertação no sentido pleno, a partir do coração idolátrico, para a alteridade do verdadeiro amor. As conseqüências para quem o aceita são de verdadeira libertação. Esta não é um simples conceito nem algo teórico ou puramente vertical. É uma linha de entrecruzamento entre o humano e o divino. Sozinho o humano não consegue ser justo no equilíbrio de amor com Deus e o semelhante. Jesus veio dar força ao humano a fim de que seu esforço ganhe a dimensão sobrenatural do amor de Deus. Com o Divino Mestre o ser humano é capaz de regenerar-se sobrenatural e naturalmente falando.

A libertação se dá ao nível da graça de Deus e da justiça horizontal nas relações sociais. É possível, então, uma nova ordem social, devido à libertação da prisão do ser humano em seu egoísmo ou pecado. Sozinhos não conseguimos sair das amarras das prisões egoístas de nosso eu. A libertação trazida pelo Filho de Deus faz-nos ser novas criaturas para exercermos a libertação nas interrelações, com a promoção da libertação social. Deus quer-nos livres e formando um mundo novo, em que cada ser humano seja amado, respeitado, promovido e incluído na convivência justa e fraterna.

Enquanto houver alguém sofrendo e injustiçado não podemos deixar de fazer nossa parte, como pessoas libertadas por Cristo, para darmos de nós em bem de quem precisa. A vida em Cristo não é só a de dar comida, nem só a de dar palavras bonitas. É a de dar ambas, nas realidades diferenciadas, nas distintas vocações e possibilidades, para que todo ser humano seja tratado como irmão e filho de Deus.

 

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