Casas para despejados de Belo Monte são feitas em um dia

Publicado em 20 de janeiro de 2014

 

Rachaduras, lajes descoladas e com infiltração e estruturas escoradas com madeira para evitar desmoronamentos: este é o estado das casas que irão abrigar as famílias despejadas pela Norte  Energia, construtora da hidrelétrica de Belo Monte, na cidade de Altamira.

Na última semana, a empresa promoveu os primeiros remanejamentos de moradores despejados dos bairros Olaria e Peixaria para o loteamento Jatobá, que fica a cerca de 5 km das antigas moradias.

Em uma visita não anunciada na última sexta feira, 17, a equipe do movimento Xingu Vivo conseguiu entrar no local e fotografar as casas em construção, constatando graves problemas nas estruturas. “É assustador. Diferente do que vem falando a empresa, e do que saiu em uma matéria do Jornal Nacional no sábado, as casas não são de alvenaria coisa nenhuma. O teto é feito de lajes com fendas onde entra água, há rachaduras nas paredes, muitas delas são escoradas com paus pra não desabarem, e, segundo nos contaram, tudo é mascarado com massa e tinta pra enganar os moradores quando são remanejados”, explica Antônia Melo, coordenadora do movimento.

De acordo com operários que trabalharam na construção, o tempo médio de levantamento de uma casa é um dia. As paredes são feitas de telas e preenchidas com concreto, com espessura média de 8 cm. “Nos falaram que o material é o mais vagabundo possível, e as famílias não têm permissão de entrar no loteamento antes da pintura da casa, pra não ver o que está por baixo”, relata Antonia.

Nesta segunda, 20, depois de uma chuva torrencial que caiu no domingo, a equipe do Xingu Vivo e famílias despejadas voltaram ao loteamento para ver as casas, mas o grupo foi impedido por seguranças armados de entrar no local. “Um segurança recebeu a gente com a mão no revolver. Imagina que construção de casa agora tem capanga armado pra ninguém ver como estão sendo feitas. Aí vem a TV Globo e fala que tudo é uma maravilha, realização de um sonho. Queria ver o repórter morar la por um mês com a sua família, nesse cubículo de 63 m2 malfeito, cheio de infiltração, longe de tudo, de escola, posto médico, do comércio”, desabafa a coordenadora do Xingu Vivo.

 

Demolição
Nos bairros onde estão sendo efetivados os despejos, imediatamente após a retirada dos moradores as casas desocupadas foram demolidas para, segundo a empresa, evitar novas ocupações. De acordo com a equipe do movimento, o procedimento está trazendo graves problemas para moradores remanescentes, uma vez que, no emaranhado de palafitas, estruturalmente elas se apoiam mutuamente. “Tirando uma, a outra, que estava escorada nela, pode cair a qualquer momento. Muitas famílias estão com medo que sua casa caia. Outro problema é que as telhas de eternit das casas demolidas são despedaçadas, jogadas la mesmo, e tem um monte de criança, trabalhador, respirando esse pó de amianto tóxico”, explica um jornalista que acompanhou as demolições.

 

Um outro problema, segundo Antônia Melo, é o pequeno tamanho das novas casas no reassentamento. “Uma moradora disse que, chegando na casa nova, metade de seus pertences não cabiam. Quando foi reclamar, o pessoal da Norte Energia disse: ‘se não cabe, joga fora essa metade que resolve o problema’”.

Após verem as fotos das casas em construção tiradas pelo Xingu Vivo, as famílias despejadas vão exigir na Justiça o direito de acompanhar e monitorar o processo, explica Antônia. “Afinal é a vida deles que está em risco se uma casa desabar, principalmente nessa época, quando começam as chuvas fortes”.

Album de fotos: casas em construção, casas demolidas e seguranças no reassentamento.

 

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