Memória de Romero corre o risco de ser apagada, alerta liderança salvadorenha

17/01/2014 | Jaime C. Patias

Assessores e articuladores de CEBs proveniente de 15 países encontram-se reunidos em Juazeiro do Norte (CE), para discutir estratégias para a caminhada futura das comunidades na América Latina e Caribe. Momentos de partilha na reflexão e oração revelam distintas facetas da realidade continental. A líder salvadorenha, Maria Elena Sanabria, 37, trabalha na Fundação Hermano Mercedes Ruiz, instituição que tem o nome de um dos catequistas das CEBs em memória do seu legado. Ele explica que a Fundação acompanha 36 comunidades com formação bíblico-teológica e projetos de desenvolvimento comunitário, nos departamentos de San Salvador, La Libertad e Morazan.

Segundo Maria Elena, muitas comunidades têm o nome de dom Oscar Romero, arcebispo de San Salvador assassinado em 1980. Para ela, um dos grandes desafios hoje é conservar a memória de Romero, para fazer frente às ações que pretendem apagá-la. “No mês de março quando, no dia 24 se recorda o seu martírio organizamos celebrações martiriais assim como no aniversário de seu nascimento, dia 15 de agosto. Além de Romero, muitos outros mártires são referências fundamentais na vida das CEBs no país”, diz.

Maria Elena avalia que, infelizmente, a memória de Romero não está sendo bem guardada por parte da Igreja institucional. “Por exemplo, em 2012 o arcebispo de San Salvador, dom Luis Escobar Alas decidiu destruir o mural de Romero que se encontrava em frente à catedral. O mosaico recordava aspectos da história do país. Além disso, há uns três meses o arcebispo decidiu fechar um escritório que tinha sido criado por Romero, para recolher as denúncias que o povo não podia levar às instituições oficiais durante o conflito armado”. Lideranças das CEBs e organismos de Direitos Humanos foram questionar o arcebispo sobre as razões do fechamento e pedir que conservasse as informações, uma vez que as vítimas confiavam nessa secretaria. “Os registros não são somente do passado, mas reúnem casos recentes como o da contaminação do meio ambiente por uma empresa de baterias. Soma-se a isso, o fato de que alguns padres destruíram murais significativos que recordavam a história de algumas comunidades bem como os rostos dos mártires. Isso prova de que querem apagar a memória do nosso povo”, denuncia Maria Elena.

Alguns justificam dizendo que essas atitudes são para não colocar em risco o processo de canonização de Romero que foi reaberto pelo papa Francisco. Maria Elena contesta. “Penso que essa atitude revela a não identificação da Igreja institucional com a proposta de sociedade alternativa que os nossos mártires deixaram e que rompe com certos privilégios de alguns padres. Ao tirar esses privilégios eles devem assumir outra forma de ser”.

Nos procedimentos e declarações há, por parte dos bispos, uma disponibilidade em favor da canonização de Romero, mas na prática a tendência é de querer apagar a memória que marcou o país e que ainda não está reconciliado com as feridas do passado. Na opinião da líder, “isso está acontecendo pela atuação profética das CEBs que incomoda certas posturas de alguns padres que não querem que nos envolvamos em política. Eles nos acusam de politizar Romero, quando na verdade, suas mensagens são ainda atuais e por isso continuamos fazendo o que ele disse e fez”.

El Salvador é um país da América Central com cerca de 7 milhões de habitantes que se prepara para ir às urnas no próximo dia 2 de fevereiro, quando acontecem as eleições presidenciais. Em 2009, pela primeira vez a Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN), um partido de esquerda, fundado por ex-guerrilheiros, assumiu o poder. Existem alguns conflitos, pois o partido no poder, a Aliança Republicana Nacionalista (ARENA), fundado por um dos mandantes do assassinato de Romero, segundo a Comissão da Verdade, se dividiu e provocou o surgimento de outro partido. Isso foi explorado pela esquerda para aglutinar forças e levar as eleições para o segundo turno, em 1º de março.

Dentre as maiores preocupações está a violência que, nos últimos anos chegou a provocar até 15 assassinatos por dia num conflito entre duas gangues rivais. Nessa disputa, foram mortos jovens rivais e também aqueles que não aceitavam fazer parte dos grupos. Há um ano, com a mediação de um bispo castrense de San Salvador, as gangues declaram uma trégua e os homicídios caíram para entre 5 e 6 por dia. Contudo, as extorsões no comércio e no transporte público ainda são uma ameaça à vida das comunidades.

Em sua atuação nas CEBs, Maria Elena reúne as principais frentes de luta e ao mostrar as cores da bandeira explica o que elas simbolizam “Com a cor branca quero recordar o povo salvadorenho que luta por um mundo onde haja lugar para todas e todos. Com a cor azul recordamos o hino onde diz que o povo salvadorenho tem o céu por chapéu. O vermelho representa o sangue dos homens e mulheres que lutam pela paz, dignidade, justiça e verdade. O verde significa a nossa mãe terra e a defesa contra a mineração, as barragens, os transgênicos e todos os projetos de morte. Quero também recordar as CEBs que são as que estão construindo um mundo onde os sonhos e ideias de Jesus se realizam”.

Fonte: Jaime C. Patias / Revista Missões

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