Assessores avaliam desafios e forças na caminhada das CEBs

Por Jaime C. Patias   
15 / Jan / 2014 16:52

O grupo de assessores da articulação Continental de CEBs, reunido desde o dia 13, em Juazeiro do Norte (CE) faz reflexões sobre a realidade social e eclesial com o objetivo de traçar linhas de orientação para o trabalho das comunidades nos próximos anos. Participam 35 lideranças vindas de países da América Latina e representantes das Filipinas e Áustria.

Ao propor uma análise de conjuntura eclesial, padre Manoel Godoy, da arquidiocese de Belo Horizonte, apresentou nesta terça-feira, dia 14, um esquema para debater os rumos da Igreja no pontificado do papa Francisco e mais além. O teólogo partiu do Concílio de Trento que, segundo ele, resgatou a Instituição da Igreja católica, através da “sistematização de um imaginário sócio- religioso, além de resgatar o clero com a criação dos seminários e enquadrar os leigos”. Ele explicou que houve uma disputa hermenêutica: “o Concílio é continuidade ou ruptura? Com o papa Francisco a concepção de ruptura ganha força, mas há ainda a ideia muito difundida entre alguns grupos de que as decisões Concílio Vaticano II são opcionais”.

Medelín foi o Vaticano II da América Latina e teve como palavra chave, a justiça. “Reafirmou a Igreja pobre, dos pobres e para os pobres. As CEBs foram entendidas como maneira privilegiada de estar com os pobres”, destacou Godoy para e em seguida, fazer algumas considerações sobre Puebla e Santo Domingo, conferências nas quais houve uma substituição do método indutivo pelo dedutivo (partir da doutrina e não da realidade). “A Conferência de Aparecida resgata o método indutivo, porém depois das mudanças na redação final, volta ao dedutivo”, disse.

O papa Francisco demonstra gostar muito de Aparecida. “Será que a primavera eclesial é real?”, pergunta Godoy lembrando que, “a Cúria romana ainda continua intacta”.

O pesquisador explicou ainda que, “nas últimas três décadas, que abarcam os pontificados de João Paulo II e Bento XVI, a Igreja sofreu um processo profundo de desespiritualização que a afundou numa crise similar àquela do período dos papas mundanos, séculos que antecederam ao Concílio de Trento”.

Isso por que, segundo Godoy, no afã de querer recuperar o terreno, a Igreja Católica fez acordos com forças ocidentais como a aliança entre João Paulo II e Ronald Reagan, as tentativas frustradas de um acordo com a China, os acirramentos de ânimo entre hindus e católicos na Índia e o proselitismo católico na União Soviética. “Tais movimentos da Instituição Católica foram acompanhados por fortes ataques às forças mais progressistas da Igreja, sobretudo no Continente Latino-americano, tendo como signo os ataques à Teologia da Libertação e às CEBs”.

O teólogo avalia que estas posições politizaram a Igreja. “Para tentar dar uma resposta à desespiritualização fez-se uma aposta nos movimentos em duas frentes distintas: na Europa, jogaram-se as fichas em instituições de cunho mais integralista – Comunhão e Libertação, Opus Dei, Neo-Catecumenato, Legionários de Cristo e Focolare; no chamado Terceiro Mundo, apelou-se, sobretudo, pelos grupos de cunho pentecostal”. Como isso, a aposta não era mais nas paróquias e congregações religiosas, mas nos movimentos que começaram a fazer encontros com a cúpula romana.

Espiritualizar sem alienar

Hoje uma das questões mais importantes é espiritualizar sem alienar. “Como se pode integrar de novo a dimensão espiritual da Igreja na experiência real que dela têm os cristãos ativos, de tal maneira que se possa viver e experimentar de um modo expressivo a união indissolúvel entre a concretização pessoal e a comunidade eclesial da fé?”, pergunta Godoy e recorda que, “as CEBs têm uma espiritualidade que deveria ser aprofundada para integrar a dimensão espiritual com a experiência real. O povo precisa ter uma espiritualidade forte nas comunidades para não ficar apenas fazendo tarefas”, diz. “Essa experiência eclesial de cunho espiritual, nas CEBs ganha o selo de fidelidade à causa dos pobres. De fato, o que se constata é uma grande carência de autêntica mística que ajude os cristãos a manterem uma relação amorosa com a Igreja, sem perder, contudo, o senso crítico. Isso só se consegue se à mística se une a clara e inequívoca opção pelos pobres”.

A trama da religião mágica

Outro desafio é evitar “a trama da religião mágica e terapêutica que impregnou a experiência eclesial dos desassistidos. Hoje, muitas comunidades eclesiais de base vivem numa mescla de luta social com expressões religiosas emotivas e pragmáticas, não bem articuladas, mas justapostas e até conflitivas. Muitas ostentam seus grupos de fé e política, mas com liturgias alienantes e regadas de alta dose de leitura fundamentalista”, alerta Godoy que chama a atenção para uma “despolitização das CEBs”.

Algumas características próprias das CEBs foram muito afetadas nos últimos anos, tais como sua relação com os movimentos populares. “Governos de esquerda trouxeram uma decepção forte aos cristãos mais engajados. Com o arrefecimento dos movimentos populares, as CEBs se descaracterizaram sensivelmente, pois perderam um espaço significativo de sua presença pública, como construtora da sociedade mais justa e fraterna”, analisa padre Godoy.

A dimensão profética

Godoy recorda ainda que a história das CEBs se mistura com a luta dos pobres por sua dignidade, por seus direitos. “Desse chão é que surgiram os profetas e os mártires, e somente em fidelidade aos pobres é que as CEBs se manterão sempre como autênticas comunidades eclesiais, fomentadoras de seguidores de Jesus e anunciadores da Boa Nova do seu Reino”.

“As sementes lançadas pelas CEBs em tantos anos de semeadura fecunda, continuam dando frutos e germinando cá e acolá, ainda que de outra forma diferente e com outro vigor”. Muito se fala de uma nova primavera eclesial. Diante disso, Godoy questiona: “será que podemos dizer que com a chegada de Francisco já estamos vivenciando verdadeiramente tempos novos?”. E faz uma alerta: “É bom ir com calma, pois o entulho eclesiástico acumulado nos últimos tempos leva anos e anos para ser removido”.

Características fundamentais

Na sua exposição, padre Godoy relacionou dez características que não podem faltar nas CEBs. A lista foi elaborada pelo padre José Marins, muito conhecido por seus estudos sobre a temática:

1. A referência ao Reinar de Deus; 2. A centralidade da Palavra em todas as nossas ações; 3. O seguimento do Jesus histórico; 4. A fidelidade à maneira de ser CEBs (não confundir com pequenas comunidades ou grupos de movimentos); 5. A permanente abertura ao outro, num verdadeiro ecumenismo; 6. A irrenunciável opção pelos pobres; 7. Celebrar mais criativamente as Eucaristias: sempre próximas do povo, comprometidas com a vida dos pobres, menos devocionais, com símbolos e cânticos mais próximos da cultura do povo; 8. Fidelidade ao método indutivo do ver, pensar, agir, avaliar e celebrar; 9. Respeito à liberdade religiosa; 10. Manter a comunidade como fermento do evangelho no seu ambiente, rompendo as cadeias eclesiásticas para um real comprometimento no social, com perspectivas profético-missionárias.

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