Até quando suportaremos as tragédias?

É necessário dar a devida atenção ao humano do ser humano, isto é, aos valores e à ética.


O que fazer quando a tragédia atinge a nós, um familiar ou uma pessoa amiga? (Foto: AFP)
Por Dom Jaime Spengler*
Somos cotidianamente informados a respeito de tragédias humanas. São os tantos atos de delinquência; acidentes de trânsito, frequentemente consequência da irresponsabilidade e da imprudência; as tragédias familiares, fruto de incompreensões, imaturidade, egoísmos etc.; as consequências cruéis da dependência química, marcada por complexidade própria; as atrocidades incompreensíveis, cometidas por pessoas de diferenciados extratos sociais, e que nem mesmo causam indignação. Enquanto nos sentimos informados a respeito de tais situações, estamos ´tranquilos´! Mas, e quando a tragédia atinge a nós, um familiar, uma pessoa amiga, um colega de trabalho?
Diante dessa dura realidade, há tantas orientações, explicações e justificativas! A orientação de não reagir diante de uma situação de violência; as explicações que apontam para a complexidade da realidade urbana, a perda de sentido, o impor-se daquilo que os pensadores denominam ´nihilismo´, a diluição da instituição família, a perda de referências e referenciais seguros, o impor-se da mentalidade do senso comum; as justificativas que nada justificam! Não faltam opiniões as mais variadas possíveis!
Vive-se numa situação estranha, senão incompreensível! Sentimo-nos reféns! Segurança parece não existir! Vemos pessoas apavoradas, como medo umas das outras! Como se sentir seguro ao sair num final de tarde para uma caminhada ao redor da quadra onde se tem o apartamento, a casa? Como se sentir tranquilo ao sair para um passeio em alguma área pública de lazer? Como se sentir seguro com os vidros do automóvel abertos, quando parados diante de um sinal de trânsito vermelho? Como serenamente, durante a noite, fazer um passeio a pé pelas ruas do centro de nossas cidades? Como ficar tranquilo quando o filho sai de casa para ir à escola ou universidade? Afinal, os ‘aviões’, não precisam mais usar truques para aliciá-los para experimentar uma droga qualquer; eles não precisam se esconder! Por vezes, estão dentro das próprias escolas! Como reagir diante de pessoas que agem como ‘zumbis’, tomados pelas consequências do uso indiscriminado e público de drogas? E poder-se-ia multiplicar as situações! Diante desta realidade dura, complexa e cruel, pergunta-se: o que fazer? Como fazer?
Há quem defenda a necessidade urgente da criação de leis mais rígidas; a diminuição da idade penal; a aplicação rigorosa da legislação em vigor; um sistema penal mais eficiente; a criação de medidas socioeducativas que produzam frutos; a eliminação de pessoas que vierem a cometer determinados delitos, etc. Para cada uma destas opiniões, não faltam justificativas e argumentos!
Entretanto, talvez fosse interessante, perguntarmo-nos honestamente, qual o projeto social de Nação que temos? Que valores estamos propondo e oferecendo para as novas gerações? Um projeto social, um projeto de Nação não se constrói de um dia para outro, e muito menos pode ser privilégio de grupos… Isto exige o envolvimento das melhores forças desta mesma Nação.
O que cotidianamente vemos é a instituição familiar deturpada, desacreditada, senão ridicularizada! A instituição escola sendo usada por ‘politicagens’; Igrejas deixando-se aliciar por questionáveis ideologias de prosperidade ou solução fácil de problemas; poderes constituídos do estado de direito, nem sempre voltados para o verdadeiro bem comum. O que fazer? Como fazer?
Investir em educação com qualidade! O humano do ser humano só se desenvolve e cresce, quando é desafiado. E neste processo, a escola tem lugar privilegiado! A escola não pode simplesmente formar mão de obra para o mercado de trabalho. É necessário dar a devida atenção ao humano do ser humano, isto é, ao sentido da vida, aos valores, à ética… Este é um trabalho que tem sua origem e fundamento naquela dimensão do humano que os antigos denominavam ‘coração’. Isto porque “o coração tem razões que a própria razão desconhece”; e estas não podem ser transcuradas ou ignoradas! Até quando?…
CNBB, 10-01-2014.
*Dom Jaime Spengler é arcebispo de Porto Alegre (RS).
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