Queda da produtividade reduz crescimento econômico mundial, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Queda da produtividade reduz crescimento econômico mundial

 

[EcoDebate] Após a recessão mundial de 2009 houve recuperação do PIB mundial em 2010, com aumento acima de 5%. Diversas firmas de consultoria projetaram crescimento acima de 4% para os anos vindouros. Mas os dados de 2011 e 2013 mostram que o crescimento ficou abaixo deste patamar e abaixo de 3% em 2013. O ano de 2014, mesmo que um pouco melhor que 2013, não apresenta grandes esperanças aos desenvolvimentistas. Cresce a impressão de que a economia mundial vai entrar em uma fase de baixo desempenho, o que só deve se agravar nas próximas décadas.

O grande crescimento econômico ocorrido no século XX só foi possível por uma incrível conjugação favorável de diversos fatores: 1) grande disponibilidade de energia fóssil a preços muito baixos; 2) grande disponibilidade de recursos naturais (terra, água, florestas, biodiversidade, etc.); 3) grande crescimento da população, com aumento da esperança de vida e dos anos médios dedicados às atividades produtivas; 4) estrutura etária favorável com aumento da parcela de “produtores” (idade 15-64 anos) sobre os “consumidores”; 5) aumento dos níveis educacionais e do capital humano; 6) aumento do estoque de capital fixo; 7) aumento do progresso técnico; 8) aumento da produtividade dos fatores de produção; 9) estabilidade do clima; e 10) condições favoráveis do meio ambiente.

O artigo do pesquisador Robert J. Gordon (“Is U.S. Economic Growth Over?”) é uma referência importante para analisar o futuro próximo, levando-se em consideração este período excepcional dos últimos 200 anos. O artigo começa recapitulando os vínculos entre períodos de rápida expansão econômica e as inovações das três Revoluções Industriais (RI): 1ª) a das ferrovias, energia a vapor e indústria têxtil, de 1750 a 1830; 2ª) a da eletricidade, motor de explosão, água encanada, banheiros e aquecimento dentro de casa, petróleo e gás, farmacêuticos, plásticos, telefone, de 1870 a 1900; 3ª) a dos computadores, internet, celulares, de 1960 até hoje. Segundo Gordon, a segunda RI teria sido mais importante em termos de acelerar o crescimento econômico, garantindo 80 anos de acelerado avanço na produtividade. Ele argumenta que este evento excepcional é único no tempo e não vai mais se repetir, devido aos ventos contrários que tendem a reduzir ou estagnar o ritmo de crescimento.

O artigo de Brink Lindsey – “Por que o crescimento está ficando mais difícil?” – Institute Cato, vai na mesma linha de Robert Gordon e considera que a maior economia do mundo, os Estados Unidos (EUA), já apresenta tendências de redução do ritmo histórico de crescimento econômico.

Por mais de um século, a tendência de crescimento de longo prazo da economia dos EUA tem ficado notavelmente estável. Não obstante as enormes mudanças ocorridas no século XX, em termos econômicos, sociais e políticos, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), real per capita, oscilou com base em uma margem muito estreita em torno de uma taxa 2% ao ano.

Olhando para o futuro , no entanto, há fortes razões para duvidar de que esta norma histórica pode ser mantida. A análise de Lindsey considera os quatro elementos constitutivos do crescimento da economia: (1) aumento da participação do trabalho, ou horas de trabalho anual per capita; (2) crescimento em qualidade do trabalho, ou no nível de habilidade dos trabalhadores; (3) aumento da intensidade de capital, ou a quantidade de capital físico investido por trabalhador, e (4) crescimento da chamada produtividade total dos fatores, ou produção por unidade de trabalho de qualidade e ajustada ao capital.

Para o autor, ao longo do século 20, estes 4 componentes oscilaram em suas contribuições para o crescimento dos EUA. As oscilações, no entanto, compensaram uma à outra, de modo que a fraqueza em um elemento foi compensada pela força de outro. No século 21, esse padrão de compensação das flutuações chegou a um impasse, pois todos os componentes do crescimento caíram simultaneamente.

O enfraquecimento simultâneo de todos os componentes do crescimento econômico não significa que a estagnação é inevitável daqui em diante. Em tese, poderia haver reversão de direção. No entanto, é difícil resistir à conclusão de que as condições de crescimento são menos favoráveis do que costumavam ser. Além disto, a situação econômica é agravada pelas mudanças climáticas e pela degradação ambiental.

O relatório do FMI sobre a economia global, de outubro de 2013, mostra que o crescimento mundial está em marcha lenta e os vetores de atividade estão mudando. Segundo o relatório, as economias avançadas interromperam o ritmo de declínio e apresentaram algum crescimento, mas ainda possuem alto nível de desemprego. As economias emergentes enfrentam o duplo desafio de desaceleração do crescimento e das condições financeiras globais mais apertados. Houve um ajuste para baixo das projeções de crescimento da economia internacional em 2013 e 2014. Refletindo o menor crescimento da economia internacional, já há quem fale em “estagnação secular”, “fim dos emergentes” e “armadilha da renda média” (como veremos em outro artigo).

Em outras palavras, o crescimento econômico está cada vez mais difícil e as condições para o estado estacionário estão cada vez mais próximas. Resta saber planejar a situação nova do fim do crescimento econômico e garantir a prosperidade para os seres humanos e todas as espécies em um quadro de estabilidade econômica ou até mesmo de decrescimento.
Referências:

LINDSEY, Brink Why Growth Is Getting Harder. Policy analysis n. 737, Cato Institute, October 8, 2013

GORDON, Robert J. IS U.S. Economic Growth Over?
Faltering Innovation Confronts The Six Headwinds
. NBER Working Paper, Cambridge, Massachusetts, Working Paper 18315, August 2012.

IMF. WEO – World Economic Outlook Reports, 08/10/2013

ALVES, JED. O fim do crescimento econômico, EcoDebate, RJ, 24/10/2012

ALVES, JED. O decrescimento econômico e populacional: uma realidade provável? EcoDebate, RJ, 03/04/2013

Robert Samuelson. Behind Washington’s Firestorm, Washington Post, October 14, 2013

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

EcoDebate, 10/01/2014

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