Ex-plantadores de coca investem em cacau orgânico no Peru

No Peru, em uma região antes dominada pelo narcotráfico e pela produção de coca, cresce hoje uma plantação sustentável de cacau. Os agricultores locais se tornaram especialistas no plantio orgânico.

cacau

Por várias décadas, as plantações de coca dominaram a província de San Martín, uma região fértil e quente entre a Cordilheira dos Andes e a Amazônia brasileira, a mil quilômetros de Lima, no Peru. Os moradores viviam sob o domínio de narcotraficantes e do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso. “A coca crescia daqui até o horizonte”, recorda Adán Rivera, que também se via obrigado a cultivar a matéria-prima da cocaína.

O passado de Rivera é marcado pela atuação dos traficantes. “Nós ainda éramos crianças. Um dia estava com minha família e amigos na estrada quando uma caminhonete parou e homens uniformizados desceram”, conta. O compartimento de carga do veículo transportava alguns homens amarrados. “Dias depois, os corpos foram encontrados, sem as mãos.”

Rivera não sabe porque os homens foram mortos, mas sabe quem os matou: “Eles eram do Sendero Luminoso”. A organização, que planejou sua marcha do cinturão tropical no flanco Leste em direção à capital Lima, desconfiava dos agricultores e usava exemplos sangrentos para intimidar os “contra-revolucionários”. Na época, Rivera tinha medo de andar pela estrada.

Das Wunder von San Martín Bio-Kakao-Anbau in Peru Tingo Maria  
A província de San Martín trocou a coca por cacau e colhe os frutos da mudança

Hoje é diferente. Os filhos de Rivera vão à escola na cidade vizinha. Ele agora supervisiona uma plantação de cacau orgânico. O cultivo pertence à empresa alemã Forest Finance, que investe no cultivo sustentável de cacau. “O Peru produz há alguns anos cacau de alta qualidade. Nós queremos continuar essa tradição”, diz o chefe da empresa, Harry Assenmacher.

Redução das taxas de pobreza pela metade

“Desde 1980 até a metade dos anos de 1990, o Peru era o maior produtor mundial de coca”, afirma Fernando Rey, diretor da Comissão Nacional para o Desenvolvimento da Vida sem Drogas (Devida). A comissão, que funciona num prédio vigiado por soldados na capital Lima, quer afastar o Peru da coca.

Nesse meio tempo, a Colômbia se transformou na principal produtora de coca. Junto com a Bolívia, os três países ainda formam o chamado triângulo de ouro da máfia internacional da coca. Fernando Rey sabe que tem um trabalho difícil: no sudeste do Peru, a produção da planta segue sem perturbações, mas na província de San Martín, a mudança teve sucesso.

Adán Rivera ainda lembra como era o plantio e o manuseio da coca 
Adán Rivera ainda lembra como era o plantio e o manuseio da coca

Rey fala do milagre de San Martín. “Hoje a região produz 12 mil toneladas de cacau, um terço da produção peruana”. O país é o 12º produtor de cacau no mundo, mas o segundo na produção do fruto orgânico, atrás da República Dominicana. “O índice de pobreza caiu de 70% para 31% nos últimos dez anos”, complementa. Em nenhuma outra região do país andino a economia cresceu com tanta força.

Além dos investimentos do Estado em escolas, estradas e segurança, a produção agrícola também vive uma expansão. A área utilizada para a agricultura duplicou. Além do cacau, os agricultores cultivam café, arroz e palmeiras e se beneficiam dos preços altos no mercado internacional. A União Europeia injetou nos últimos anos 36 milhões de euros na região.

Mas o problema das drogas ainda está longe de ser resolvido. “A rota das drogas muda. A cocaína peruana, que antes era destinada aos Estados Unidos, é hoje levada para a Europa através do Brasil e da África “, explica o diretor da Devida.

Cooperativa faz escola

A província de Huánuco, que faz fronteira com San Martín, também deu início a uma nova era. Os 55 mil habitantes da capital provincial, Tingo María, junto com a organização agrária El Naranjillo, têm hoje uma das maiores cooperativas de cacau orgânico da America Latina.

Francisco Rodriguez conta que o cacau da mais trabalho, mas a legalidade compensa 
Francisco Rodriguez conta que o cacau da mais trabalho, mas a legalidade compensa

Antes, a cidade era uma grande produtora de coca. Os fazendeiros da região não eram apenas plantadores, relembra Francisco Rodriguez, integrante da cooperativa. “Muitos mantinham seu próprio laboratório. Com cloro e gasolina, produziam pasta de coca a partir das folhas”. Rodriguez é do povoado de Huayhuantillo, onde setenta famílias trocaram a cultura de coca por cacau orgânico nos últimos anos – como a maioria dos quase dois mil cooperados. “A transição foi difícil, levou alguns anos. O cacau exige mais e rende menos que a coca. Mas agora o negócio é legal e seguro”, diz ele.

Em Huayhuantillo, a nova escola de ensino fundamental e o gramado bem cuidado da praça comprovam a mudança. Nas ruas, não se vê lixo. As casas têm fossa séptica – bem diferente de outras vilas isoladas e suas casas pobres de telhados sobre estacas, que ainda vivem da coca. A cooperativa paga aos produtores um complemento de 36 centavos de euro por quilo em relação ao preço de mercado. Além disso, oferece saúde gratuita e ajuda a manter as crianças na escola.

Na Alemanha, a organização de comércio justo GEPA e a cadeia de alimentos orgânicos Naturland são clientes da cooperativa. Cerca de 25% do cacau usado na fabricação do chocolate da rede orgânica vêm dos ex-produtores de coca do Peru. Os agricultores se dizem satisfeitos com a mudança dos negócios, e por terem escapado dos problemas constantes com compradores de coca, terroristas e militares que dominavam suas vidas.

Matéria de Oliver Ristau (ie), na Agência Deutsche Welle, DW, reproduzida pelo EcoDebate, 10/01/2014

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