O grito da Amazônia

A Igreja Católica na Amazônia Legal: bispos, coordenadores de pastoral, religiosas, religiosos, leigos e convidados se reuniram para discutir a ação da Igreja na região.

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Vozes de profetismo, denúncia, fé e esperança ecoaram no I Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal, em Manaus (AM), de 28 a 31 de outubro de 2013, promovido pela Comissão Episcopal para a Amazônia (CEA) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), quando se reuniram 160 missionários, leigos e leigas agentes de pastoral, presbíteros, religiosos e 57 bispos dos nove estados que compõem a Amazônia Legal: Tocantins, Maranhão, Mato Grosso, Rondônia, Acre, Amazonas, Pará, Roraima e Amapá para traçar objetivos e prioridades de ação diante do contexto apresentado.

As lideranças estudaram e rezaram a região, o que resultou na renovação do compromisso em ser Igreja “encarnada na realidade, pelo conhecimento e pela convivência na simplicidade, e uma evangelização libertadora” – diretrizes assumidas no I Encontro da Igreja na Amazônia, em Santarém (PA), 1972.

Sorriso largo, fala enfática que se eleva com veemência. Ele assume com postura profética e combativa, unindo fé e vida, a luta dos povos indígenas, ribeirinhos e extrativistas da Amazônia, essa é a voz do bispo da Prelazia do Xingu (PA), dom Erwin Kräutler, 74 anos.

Com inteligência e sensibilidade, ele atua incansavelmente em prol dos atingidos por Belo Monte. O procurador do Ministério Público Federal, Felício PontesJr, afirma que, por vezes, se vê numa sensação de derrota e fracasso, mas convicto parafraseia Darcy Ribeiro: “detestaria estar no lugar de seus vencedores”.

Ao se aposentar, deixou Campinas (SP) e partiu em missão para Tabatinga (AM). A viagem fluvial partindo de Manaus (AM) dura cerca de três dias na ida e, de retorno, sete. Na cidade da selva amazônica, a missionária leiga dedica especial atenção às juventudes, educação ambiental e formação de lideranças. Izalene Tiene, 70 anos, do Projeto Igrejas Irmãs, entre os estados de São Paulo e do Amazonas.

Os olhos castanhos escuros ficam marejados, o olhar sereno, firme e confiante dá voz aos que são explorados. Há possibilidade real de a vida lhe ser tirada. Assumiu decididamente o compromisso em combater a exploração sexual e o tráfico humano. Por seu compromisso, irmã Henriqueta Cavalcante, 53 anos, da Comissão Justiça e Paz da CNBB no Pará e Roraima , sofre ameaças de morte.

Pele negra, calejada pela história; olhar firme no horizonte e nas linhas da lei que asseguram a si e ao seu povo a terra de seus antepassados. Marcado para morrer, Catarino dos Santos, 35 anos, filho e defensor do Quilombo Cruzeiro, (MA), defende o direito à terra dos quilombolas.

Esses são alguns dos protagonistas da Igreja na Amazônia Legal. “A Igreja quer dar voz e estar junto com vocês para reivindicar o direito de ter voz, de falar e de não ser atropelada simplesmente por quem quer ganhar dinheiro”, afirmou o cardeal dom Claudio Hummes, presidente da CEA, referindo-se aos projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para a Amazônia.

Além dos impactos das hidrelétricas, o encontro discorreu temas que afligem os povos ribeirinhos, extrativistas, quilombolas e indígenas: a luta pela terra. Tratou, também, do Tráfico Humano, já que estradas, rios e aeroportos da região Amazônica são as principais rotas para o tráfico internacional; além do desafio da Pastoral Urbana diante às transformações das cidades.

 

Região continental

A Amazônia Legal corresponde a cerca de 60% do território nacional. Nela residem 56% da população indígena brasileira. Segundo a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), são aproximadamente 21 milhões de habitantes, ou seja, 12,4% da população nacional.

De acordo com a SUDAM, de 1970 a 2000 a população da região quase triplicou. A urbana cresceu mais do que a população total, passando de 35,7% para 68,2%. Os números refletem a política de desenvolvimento da região que apostou em grandes empreendimentos extrativistas, resultando em impactos ambientais irreversíveis à fauna, flora e às populações tradicionais, em uma intensa migração, que condicionam a população a situações de vulnerabilidade social e de violência cotidianas.

“Estamos sofrendo uma situação caótica em termos de educação, saúde, trânsito, segurança pública e depois uma carestia nunca vista. A prostituição está em toda parte. Na frente vê-se um restaurante, e atrás uma casa de programa. É tudo clandestino”, denuncia dom Erwim Krautler.

Segundo o procurador Felício Pontes, o governo federal não realizou consultas públicas prévias, como prevê a Constituição Federal e a Convenção 69 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), para a construção da Usina de Belo Monte e de outros projetos de barragens da Amazônia.

“Não poderiam os bispos da Amazônia ter escolhido o momento mais propício para se reunirem. Há um novo desafio pela frente. Estão previstas para os próximos 20 anos a construção de 40 hidroelétricas na Amazônia. 40% delas atingem povos indígenas e 100% delas atinge as populações tradicionais, quilombolas, colhedores de açaí, seringueiros”, reforça Felício Pontes. Segundo o Movimento Viva Xingu, serão removidas entre 16 mil a 25 mil pessoas só na Belo Monte.

“Essa afetação não significa uma melhora na condição de vida dessas pessoas, muito pelo contrário, elas vão ser tiradas de lugares onde têm o perfeito domínio e harmonia com a natureza para lugares onde não possuem domínio, conhecimento e história”, lamenta Felício.

Em Rondônia, os impactos das usinas de Jirau e Santo Antônio realocaram 7 mil pessoas.Depois que começaram a abrir as turbinas e as comportas, a água desbarrancou as beiras do rio, umas 300 famílias tiveram que ser desalojadas e restaurantes foram fechados, isso não estava previsto”, disse Josep Ibora Plans (Zezinho) da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Zezinho aponta a prostituição como outro problema. “O distrito de Jaci-Paraná (RO), que está mais perto de Jirau, se converteu em um grande prostíbulo. Com o deslocamento das famílias, vimos aumentar o número de conflitos de terras, que hoje chega a 70 no estado”. Entre 2012 e 2013, dez lideranças foram assassinadas.

A CPT também conta com voluntários que trabalham na formação dos pequenos agricultores na região Amazônica, “para que não precisem destruir a mata e produzam sem veneno e agrotóxicos”.
Alternativas sustentáveis à luz da fé

Iniciativas apontam resultados satisfatórios a partir de projetos criados e geridos pelos povos da Amazônia. Padre Luis Ceppi, assessor das Pastorais Sociais nos estados de Rondônia, Acre e sul do Amazonas, destaca o Projeto de Reflorestamento Econômico Consorciados e Adensado (RECA), na Vila Nova Califórnia (RO) – uma Associação dos Pequenos Agrossilvicultores que cultivam frutas nativas em conjunto com culturas agrícolas e a criação de animais.

O RECA possui atualmente onze grupos de produtores organizados na área rural. Cada grupo possui um líder e um coordenador para representar o Reca em seu dia a dia e nas discussões de trabalhos. No Acre, há cooperativas que favorecem as famílias extrativistas do Alto Acre, Baixo Acre e Purus, na organização, representação e garantia da sustentabilidade extrativista, agregando valor aos produtos, no resgate da credibilidade, da dignidade e da educação, na promoção da igualdade social, econômica e respeito ambiental.

 

A voz do povo pela Terra

Os conflitos de terra se espalham pelo País. São motivados pela disputa com o agronegócio. Estudo do Greenpeace aponta que 79,5% das áreas utilizadas na Amazônia Legal (excetuando-se o Maranhão) estão ocupadas por pastagens. Em 2003 havia 64 milhões de cabeças de gado na região.

Os dados se refletem no levantamento da Comissão Pastoral da Terra que apresenta uma lista com 116 nomes de pessoas ameaçadas de morte, por disputa de terra entre fazendeiros e povos indígenas, extrativistas e/ou quilombolas.

Lideranças como irmã Dorothy Stange, o casal de extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva eMaria do Espírito Santo, assassinados, continuam a sofrer ameaçasCatarino dos Santos Costa, de Pinheiro (MA), é descendente de pessoas escravizadas e luta para que 536 famílias, 5.834 pessoas, permaneçam no Quilombo Cruzeiro, em Palmeirândia, a 319 quilômetrosda capital São Luís, conforme Decreto 4887, que assegura os direitos territoriais dos quilombos.

A luta pela terra indígena também esteve presente nas discussões no encontro. “Juntos, povos indígenas, CNBB e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), conquistamos a Raposa Serra do Sol, nossa terra. Esse feixe de vara tem levado a Bíblia na estrada, nos matos para combater a violência. Queria agora uma nova caminhada, uma nova saída para resolver os problemas dos nossos povos pelo País. Estou muito preocupado, e tenho certeza que os senhores estão entendendo e acreditando, estaremos unidos para vencer as dificuldades”, disse Jacir José de Souza, liderança indígena da Terra demarcada Raposa Serra do Sol.

Os “problemas” a que se refere Jacir partem de Brasília (DF), onde tramita uma Proposta de Emenda à Constituição, a PEC 215, que quer transferir a competência da União para a demarcação de terras para o Congresso Nacional.

“Não é possível que agora vem uma senhora dessas (senadora Kátia Abreu) e queira virar a história para o tempo antes da própria Constituição, dos militares, quando se pleiteava pela incorporação dos silvícolas na comunidade nacional. Olha, esse tempo passou e eu até me envergonho que tenhamos gente no Congresso que proponha uma coisa dessas, porque conspurca a imagem do Brasil, que é signatário de tantas convenções e não pode passar por cima disso. A bancada ruralista só tem interesses e quer se expandir à custa da vida e sobrevivência de povos inteiros. Nós vamos cobrar aquilo que o Brasil é signatário”, afirmou dom Erwin Krautler, presidente do Cimi.

 

A Igreja missionária

Para o historiador e Coordenador da Pastoral da Arquidiocese de Belém (PA), padre Raimundo Possidônio, a Igreja precisa se atualizar no que diz respeito à realidade da vida do povo nas cidades. “Parece que há uma caracterização do padre de hoje como padre para a liturgia, para o culto, e aí você vai percebendo que essa realidade social, dos fiéis, que já é de abandono, às vezes também vem pelo lado da Igreja. Não diria na sua totalidade, mas há esse abandono e isso é preocupante e provoca perdas”.

Segundo o historiador, observa-se na realidade religiosa que “a proposta de Igreja mais ligada ao litúrgico vai assumindo um vácuo que vai ser aproveitado por uma realidade que não existia. Esse vácuo deixado aqui está sendo ocupado agora pelos pastores”, afirmou padre Raimundo.

Para além dos números, exemplos missionários e silenciosos despontam nas cidades e ao longo dos rios que permeiam a Amazônia Legal. Padre José Cândido Cocaveli, 35 anos, está na Prelazia de Tefé há quase 15. Enviado pela Diocese de São José do Rio Preto, em 1999, como missionário leigo, descobriu sua vocação sacerdotal em meio à missão, em uma realidade empobrecida.

“Os pobres aqui na fronteira são esquecidos, ignorados e não contados, não têm acesso digno à saúde, à educação de qualidade”, revelou o padre que procura fazer parte dos conselhos paritários; no Conselho Municipal do Direito da Criança e do Adolescente e no Conselho de Saúde para “cobrar atuação mais firme por parte do executivo local”, afirma o padre.

É pelo Rio Japurá, de barco e canoa, que o padre chega às suas 25 comunidades, para com elas celebrar a Eucaristia, partilhar a palavra. Há comunidades que visita apenas duas vezes por ano, dada as longas distâncias, e ali o papel do leigo é decisivo para a existência da comunidade.

“O protagonismo laical não se dá no confronto e na disputa entre ministério ordenado e não ordenado. Em tempo de rever o Concílio Vaticano II, a gente tem de recuperar uma coisa: o Concílio fez uma inversão nessa estrutura da Igreja. Nós somos povo de Deus. Eu como padre faço parte do povo sacerdotal pelo Batismo”, lembra Cocaveli.

Há dois anos na Prelazia de Tefé (AM), a assistente social, ex-prefeita de Campinas (SP) e leiga missionária, Izalene Tiene, atua na cidade Tabatinga (AM), divisa entre Colômbia, Peru e Brasil. “O motivo que me leva ao engajamento missionário na região é o dedicar-me com especial desvelo à juventude, educação ambiental e formação de lideranças. E, em 2014, em consonância com os temas da Campanha da Fraternidade,  combatermos o tráfico humano, muito sério na região Amazônica”, enfatiza a missionária.

 

Vidas pela vida

“Algumas pessoas me diziam: ‘não apóie nas investigações contra o tráfico de pessoas, o senhor não conhece o poder mortífero, o ódio e a organização que eles têm. Eles vão lhe matar’. Mas eu devia fazer uma opção e a fiz. São ovelhas do rebanho que Cristo que me confiou. Não posso dar as costas, tenho de entrar nessas areias movediças que poderão me levar à morte. Tive de rezar, rezar mesmo, dobrar os joelhos para entender que o meu ministério episcopal ia mudar desde aí para frente, já não ia ser o mesmo bispo. E assim foi”, conta dom José Luís Azcona Hermoso, 73 anos, bispo da prelazia do Marajó (PA).

Em sua atuação pastoral, dom Azcona vem denunciando a situação miserável em que vive a população do arquipélago, a devastação ambiental e a pesca predatória na região. Além disso, denunciou a prostituição infantil e o tráfico de mulheres da Prelazia para a Guiana Francesa e para a Europa. Por esse engajamento, é ameaçado de morte.

O tráfico de pessoas se configura quando a vítima é retirada de seu ambiente, de sua cidade e até de seu país e fica com a mobilidade reduzida, sem liberdade de sair da situação de exploração sexual ou de trabalho, ou em confinamento para remoção de órgãos ou tecidos. Segundo as Nações Unidas, o tráfico de pessoas movimenta anualmente 32 bilhões de dólares em todo o mundo. Desse valor, 85% provêm da exploração sexual.

Segundo irmã Henriqueta Ferreira Cavalcante, membro do Comitê Estadual de Combate ao Tráfico no Pará e do Grupo de Trabalho contra Tráfico Humano da Mobilidade Humana da CNBB, o tráfico humano se tornou uma verdadeira indústria poderosa. “Existe um movimento enorme de envolvimento de servidores públicos que deveriam fazer a repressão e isso é extremamente angustiante, causa muito mais indignação”.

“Nós, aqui na Amazônia, vivemos em área de fronteira e facilita muito o tráfico. Não há controle, fiscalização. A fragilidade é enorme, passo 15, 20 horas dentro de barcos e vejo a movimentação de crianças que circulam sozinhas, inclusive quantas vezes viajando para Marajó eu constatei o movimento de crianças envolvidas com os próprios funcionários das embarcações. Aí é que começa todo o movimento e quem atua hoje no tráfico humano, atua também no tráfico de drogas. O barco que leva a pessoa traficada, leva a arma e a droga, denuncia a irmã que também faz parte da Rede Desarma Brasil”, denuncia a religiosa.

Dom Azcona ressalta que o papel da Igreja, sobretudo com a Campanha da Fraternidade de 2014, é o de conscientizar as vítimas e toda a população. E não ter medo de exercer o papel profético da denúncia. “A atuação da Igreja ajuda a intimidar esses poderosos chefões do tráfico”, enfatiza.

“Já perdi o medo! Nosso Senhor tem tirado todo o medo. E vocês não tenham medo de começarem a defender, neste Brasil de corrupção, a justiça e a verdade. Vocês vão correr perigo de morte e serem perseguidos, mas a justiça e a verdade precisam ser defendidas”, convoca dom Azcona.

Em trecho da carta conclusiva do I Encontro da Igreja da Amazônia Legal, os participantes se mostram confiantes da presença de Jesus Cristo na ação pastoral e evangelizadora na região, e convidam os que não professam a fé católica a unirem-se na defesa da dignidade e dos direitos humanos dos povos da Amazônia.

 

Por Karla Maria e Osnilda Lima, fsp – Signis Brasil *

Fotos: José Altevir, CSSp

* Essa reportagem é um projeto pioneiro promovido pela Signis Brasil em parceria com 16 impressos católicos que aderiram à proposta de produção e publicação de conteúdo compartilhado.

Esta reportagem será publicada na revista Rainha dos Apóstolos,

edição de dezembro de 2013.

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