RECUPERAR A BELEZA DO EVANGELHO

Pe. José Antonio Pagola.      Tradução: Antonio Manuel Álvarez Pérez

No prólogo do evangelho de João fazem-se duas afirmações básicas que nos obrigam a rever de forma radical a nossa forma de entender e de viver a fé cristã, depois de vinte séculos de não poucos desvios, reducionismos e enfoques pouco fieis ao Evangelho de Jesus.

A primeira afirmação é esta: “A Palavra de Deus fez-se carne”. Deus não permaneceu calado, encerrado para sempre no Seu mistério. Falou-nos. Mas não se nos revelou por meio de conceitos e doutrinas sublimes. A Sua Palavra encarnou-se na vida profunda de Jesus para que a possam entender e acolher até os mais simples.

A segunda afirmação diz assim: “A Deus jamais ninguém viu. O Filho único, que está no seio do Pai, é quem o há dado a conhecer”. Os teólogos, falamos muito de Deus, mas nenhum de nós o viu. Os dirigentes religiosos e os predicadores, falamos Dele com segurança, mas nenhum de nós viu o Seu rosto. Só Jesus, o Filho único do Pai, nos contou como é Deus, como nos quer e como procura construir um mundo mais humano para todos.

Estas duas afirmações estão na base do programa renovador do Papa Francisco. Por isso procura uma Igreja enraizada no Evangelho de Jesus, sem nos enredar em doutrinas ou costumes “não diretamente ligadas ao núcleo do Evangelho”. Se não o fazemos assim, “não será o Evangelho o que se anuncia, mas alguns acentos doutrinais ou morais que procedem de determinadas opções ideológicas”.

A atitude do Papa é clara. Só em Jesus nos foi revelada a misericórdia de Deus. Por isso, temos de voltar à força transformadora do primeiro anúncio evangélico, sem eclipsar a Boa Nova de Jesus e “sem nos obcecarmos por uma multidão de doutrinas que se intenta impor à força de insistência”.

O Papa pensa numa Igreja em que o Evangelho pode recuperar a sua força de atração, sem ficar obscurecida por outras formas de entender e de viver hoje a fé cristã. Por isso, somos convidados a “recuperar a frescura original do Evangelho” como o mais belo, o maior, o mais atrativo e, ao mesmo tempo, o mais necessário”, sem encerrar Jesus “nos nossos esquemas aborrecidos”.

Não nos podemos permitir nestes momentos, viver a fé sem impulsionar nas nossas comunidades cristãs a conversão a Jesus Cristo e ao Seu Evangelho a que nos chama o Papa. Ele mesmo nos pede a todos “que apliquemos com generosidade e valentia as sus orientações sem proibições nem medos”.

 

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